Ana Rodrigues, Diretora-executiva do Centro de Conhecimento de Economia do Ambiente da Nova SBE

Pneus reciclados nos parques infantis: perigo, exposição e risco

Um pavimento reciclado pode ser barato na compra e caro no fim de vida. A economia circular só compensa quando todo o ciclo de vida, incluindo a segurança, entra nas contas.

A economia circular enfrenta um novo desafio. A União Europeia vai restringir, a partir de 2031, os granulados de enchimento dos campos desportivos devido à libertação de microplásticos. A medida não proíbe os pavimentos dos parques infantis, mas questiona o futuro da reciclagem de pneus. Em Portugal, onde mais de 1,6 milhões de toneladas de pneus usados foram recolhidas e valorizadas entre 2003 e 2021, e onde a meta de reciclagem é de 65%, encontrar aplicações seguras para estes materiais tem também importância económica.

Atualmente, na Catalunha, a discussão centra-se na substituição dos pavimentos de borracha reciclada em espaços frequentados por crianças, devido a substâncias potencialmente nocivas, incluindo compostos com propriedades de disrupção endócrina, capazes de interferir com o funcionamento hormonal. Barcelona, que tem cerca de 330 espaços de jogo com pavimento de borracha em parques públicos, já iniciou a substituição em creches.

Contudo, importa distinguir três conceitos, perigo, exposição e risco. A presença de uma substância perigosa não significa, por si só, que provoque danos. É necessário perceber quanto é libertado, como entra no organismo e se a exposição é suficiente para produzir efeitos adversos. Temperatura, desgaste, contacto e idade das crianças são fatores relevantes. A ciência identifica motivos para investigar, mas não permite concluir que todos os pavimentos apresentam o mesmo risco.

Esta incerteza tem também implicações económicas. Um pavimento inicialmente barato pode tornar-se dispendioso se exigir substituição precoce, libertar partículas ou implicar custos de monitorização. Por outro lado, materiais alternativos, como areia ou cortiça, não são automaticamente mais sustentáveis. É necessário comparar segurança, acessibilidade, manutenção, exposição química e impacto ambiental ao longo de todo o ciclo de vida.

Em Portugal, não é conhecido um inventário público nacional dos pavimentos de borracha reciclada existentes em creches, escolas e parques infantis. Sem esses dados, é difícil avaliar a exposição ou planear substituições. O primeiro passo deveria ser identificar os materiais instalados e incorporar critérios de segurança química e ambiental nas compras públicas.

Perante riscos ainda em estudo, a resposta não deve ser o alarmismo nem a inação, mas uma avaliação científica que permita, quando justificado, substituir gradualmente os materiais. Afinal, o sucesso da economia circular não se mede apenas pela quantidade de resíduos valorizados, mas também pela segurança e sustentabilidade da segunda vida que lhes damos.

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