Joana Santos Silva, Professora, ISEG Executive Education

Planeta e ‘tech’, parceiros ou inimigos?

Se não estivermos dispostos a ter um pouco menos de “conveniência digital” agora, a fatura futura será impagável. E como sabemos, a fatura vem sempre...

Há dias participei num fórum que me desafiou a pensar como é que a digitalização pode ajudar a construir um mundo mais sustentável.

A minha primeira reação foi francamente negativa. Na realidade, as tecnologias, e em particular as empresas do setor, são fontes de consumo negligente de recursos. Os modelos de negócio sobre o quais estas empresas estão assentes são fundamentadamente insustentáveis.

O sector tecnológico é responsável por sensivelmente 3% das emissões de gases de efeito de estufa, tendo ultrapassado outras indústrias altamente poluentes como é a aviação. Apenas os centros de dados são fonte de 45% desses gases.

O comportamento dos utilizadores também não pode ser desprezado. Quando todos têm um smartphone na mão, é tendência tentar ignorar o impacto ambiental que estes aparelhos têm, sendo que 85-95% da pegada de carbono destes aparelhos corresponde à fase da sua produção e a vida útil média de utilização é apenas de 2,5 anos.

Anualmente, produzimos 62,5 biliões de euros de lixo eletrónico e apenas 20% desse entra em circuitos de reciclagem formal.

Cada mensagem de Whatsapp, cada post nas redes sociais, cada consulta na internet, cada stream de música contribuem para aumentar a nossa pegada de carbono. De todo o tráfego online, 60% diz respeito a visualização de vídeos, o que gera 300 milhões de toneladas de dióxido de carbono anualmente, o equivalente a 1% das emissões globais.

Se 70 milhões de utilizadores reduzissem apenas a qualidade dos vídeos de HD/4K para o padrão standard seriam economizadas 3,5 milhões de toneladas de CO2, o que equivale à eliminação de 1,7 milhões de toneladas de carvão. Da próxima vez, pergunte-se se precisa mesmo de ver mais um vídeo de gatinhos bebés…

O nosso apetite pelo instantâneo, fácil, à distância de um clique, é voraz, mas vem a grande custo. Em grande medida, a responsabilidade para tornar a tecnologia amiga do ambiente carece de uma mudança de comportamento profunda por parte dos utilizadores, ou seja, por parte de todos nós.

Então como podemos construir um futuro mais sustentável assente em tech?

Na minha opinião, a solução para este desafio humano à escala global será assente em ciência e tecnologia. Apenas a ciência tem o poder de criar soluções francamente inovadoras e com a rapidez necessária para mitigar a gestão danosa e imponderada que o ser humano tem tido para com a sua própria casa.

Existem alguns exemplos de tecnologias que beneficiaram o meio ambiente, mas ainda consistem numa minoria. É preciso escalar e tornar como prioridade a utilização de novas tecnologias na aplicação de soluções para a sustentabilidade, e não como fontes de mais poluição e desgaste de um sistema que já se encontra doente. Para uma sociedade produtiva, precisamos de um mundo “saudável”.

Dito isto, nenhuma tecnologia humana pode substituir totalmente a “tecnologia da natureza”. Temos muito para aprender com o nosso planeta e o sistema de bio feedback que ele utiliza para se reparar e criar equilíbrio.

Podemos reimaginar a tecnologia da natureza e aplicar as nossas ferramentas para “hackear” a mesma e restaurar o nosso planeta, mas para tal são necessários imaginação, inventividade, espírito empreendedor e ainda alguma contenção e repensar dos nossos padrões de consumo.

Se não estivermos dispostos a ter um pouco menos de “conveniência digital” agora, a fatura futura será impagável. E como sabemos, a fatura vem sempre…

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