Rafael Alves Rocha, Diretor-Geral da CIP – Confederação Empresarial de Portugal

O monstro precisa de amigos

Embora a simplificação administrativa seja de extrema importância, considerando o estorvo que a burocracia representa para cidadãos e empresas, Portugal carece de mais do que um novo Simplex.

No romance “O Processo”, de Franz Kafka, Josef K. é atormentado por uma sensação de impotência, desencanto e frustração perante a longa manus do Estado. Este clássico da literatura deu origem ao adjetivo kafkiano, que descreve, justamente, uma situação opressiva e desconcertante provocada por uma organização burocrática.

O rebaixamento dos cidadãos quando confrontados com a arbitrariedade, prepotência, desproporção e entropia da Administração Pública deu ao Estado um outro contundente adjetivo: o monstro. Mas o monstro já foi um belo príncipe, sobretudo quando a exangue Europa recuperava da destruição causada pelas duas grandes guerras. O chamado Estado providência nasceu no final do séc. XIX, pela mão do chanceler alemão Otto von Bismarck, que introduziu seguros sociais obrigatórios para doença, acidentes de trabalho, invalidez e velhice.

O modelo bismarckiano ainda prevalece em alguns países europeus e foi, provavelmente, o primeiro sistema de bem-estar social moderno. Seria, pois, um político conservador o pioneiro no reconhecimento da necessidade de medidas sociais, por forma a garantir dignidade e proteção aos cidadãos. Bismarck respondia ao crescimento do socialismo na Alemanha, esvaziando o risco de sublevações populares. Mas, curiosamente, deve-se ao socialismo democrático ou social-democracia a expansão do Estado providência na Europa.

O conceito de Estado social europeu, nas suas diferentes declinações (modelo nórdico, bismarckiano, anglo-saxónico…), foi posto em prática após a 2.ª Guerra Mundial. Representou um compromisso político com o bem-estar social e a melhoria das condições de trabalho, que se traduziu em mais direitos civis e laborais, serviços públicos e proteção social. Na altura, a Europa procurava erguer-se dos escombros do conflito e, para isso, contava com a ajuda financeira dos EUA, através do Plano Marshall.

O Relatório Beveridge, elaborado pelo economista inglês homónimo, esteve na base do welfare state europeu, que conheceu a sua primeira versão no Reino Unido pelo Governo Trabalhista de Clement Attlee, a partir de 1945. O Estado social contribuiu fortemente para a reconstrução das economias do Velho Continente, para a reintegração do dilacerado tecido social europeu e para a contenção do comunismo. Pouco depois, com a criação da CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço) e da CEE (Comunidade Económica Europeia), o Estado social torna-se um princípio basilar do projeto europeu.

O estado a que o Estado chegou

Em Portugal, o primeiro esboço de Estado providência surgiu com o marcelismo. Após 1968, o sucessor de Salazar introduziu algumas políticas para melhorar o bem-estar social dos portugueses. Mas é depois do 25 de Abril que, de facto, se dá a emergência de um verdadeiro Estado providência, com a efetivação de um conjunto de direitos sociais e laborais que tiveram, em 1976, respaldo na Constituição. A criação do SNS, em 1979, garantiu o acesso universal a cuidados de saúde e representou, por isso, um avanço decisivo na consolidação do Estado social. Com a integração europeia, Portugal passou a dispor de capacidade financeira para expandir e modernizar o conjunto de serviços públicos que consubstanciam o atual modelo de proteção social.

É na passagem dos anos 80 para os anos 90 que o idílio com o Estado começa a esmorecer. Numa sociedade com défice de iniciativa privada, atrasos estruturais e profundas carências sociais, o Estado tornou-se omnipresente. A Administração Pública engordou e multiplicou-se em direções, empresas, entidades, serviços… Os benefícios sociais passaram a mercadoria eleitoral, servindo para comprar votos com promessas invariavelmente despesistas. Nascia então o monstro: anafado de estruturas e funções, consumidor ávido de recursos, albergue para clientelas, teia intrincada de burocracia, máquina de improdutividade, desperdício e redundâncias, terreno fértil para negócios pouco claros.

Isto numa altura em que começava a ser evidente a necessidade de reformar o Estado social. Como se veio a confirmar, a globalização económica, os avanços tecnológicos, os fluxos migratórios e sobretudo a inversão da pirâmide demográfica exponenciaram os riscos de insustentabilidade do welfare state europeu. As últimas e convulsivas décadas na Europa – com crises financeiras, forte crescimento das dívidas públicas, perda de competitividade económica e atraso tecnológico – tornaram claro que em muitos países, nomeadamente em Portugal, a riqueza gerada já não é suficiente para alimentar a magnanimidade do Estado.

Depois da crise financeira e da intervenção da troika, Portugal fez um esforço brutal para consolidar as contas públicas. Ora, esse esforço implicou cortes profundos na despesa pública e uma redução significativa do investimento público, conduzindo à inevitável degradação dos serviços do Estado. A manta esticou de um lado e destapou do outro. O Estado está hoje numa relação complicada com cidadãos e empresas, pois não garante serviços públicos de qualidade, não assegura dignidade e proteção aos mais carenciados e não facilita a vida dos cidadãos e a atividade das empresas.

Ir além da simplificação administrativa

Como se viu nas últimas eleições, os portugueses estão manifestamente descontentes com a ineficiência do Estado. A reforma do setor público ganhou uma urgência redobrada e foi assumida como uma das prioridades políticas do novo Governo. É necessário não só assegurar a sustentabilidade do Estado social, mas também melhorar a efetividade dos serviços públicos e preservar a autoridade, credibilidade e confiabilidade das instituições públicas.

Perante as ineficiências da Administração Pública, torna-se imperioso definir em que áreas o Estado deve atuar e ser forte e eficaz. Mas importa também definir em que áreas o Estado se deve abster de intervir, de forma a libertar recursos para a sociedade e a poupar o erário público. Se uma intervenção pública mais assertiva é bem-vinda na construção de habitação, na gestão da floresta ou no funcionamento das infraestruturas críticas, também é verdade que não se entende o quase monopólio do Estado nos transportes coletivos, a relutância em parcerias com os privados em vários setores (como o da saúde) ou a prodigalidade de entidades públicas sem objeto preciso.

Não se trata de reduzir o número de funcionários públicos, cuja percentagem está abaixo da média europeia. Ninguém desdenharia mais médicos e enfermeiros nos hospitais, mais professores nas escolas, mais polícias na rua, mais juízes nos tribunais… Trata-se, sim, de termos um funcionalismo público jovem e qualificado, bem gerido, descentralizado e dotado de meios tecnológicos. Com melhores salários e carreiras podemos atrair talento para o Estado e, assim, aumentar a eficiência e produtividade da máquina pública.

Embora a simplificação administrativa seja de extrema importância, considerando o estorvo que a burocracia representa para cidadãos e empresas, Portugal carece de mais do que um novo Simplex. O monstro precisa mesmo de amigos, e espera-se que o ministro Gonçalo Saraiva Matias seja o seu BFF (best friend forever). Urge empreender uma profunda reforma no Estado, sem que isso signifique reduzi-lo à expressão mínima, descuidando o seu papel central na promoção do desenvolvimento socioeconómico. O que se pretende é um Estado mais eficiente, sustentável e racional, que seja parceiro das empresas e cúmplice dos cidadãos.

No caso das empresas, isto significa processos administrativos simples, serviços públicos expeditos, fiscalidade competitiva e previsível, pagamentos do Estado céleres e justiça diligente. Ou seja, as empresas apenas desejam melhores condições para desenvolverem as suas atividades com autonomia e rapidez.

Relacionado

Ciberataque expõe na Internet dados não classificados das secretas portuguesas

Ciberataque expõe na Internet dados não classificados das secretas portuguesas

"O acervo de dados terá sido obtido através de um ciberataque ao servidor de desenvolvimento (utilizado para testes) do prestador de serviços que, durante o ano de 2025, foi contratado para desenhar os 'websites' públicos do SIRP, SIS [Serviço de Informações e Segurança] e do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa [SIED]", disse hoje à Lusa fonte oficial do SIRP, salientando que estes três portais "não contêm informação classificada".