Pedro Braz Teixeira, Economista

O espectáculo da surpresa política

A novidade radical de Trump é transformar o entretenimento no propósito da política. Tudo na sua administração é pensado como espectáculo. A política externa, incluindo Zelensky na Sala Oval, é uma acrobacia.

A muito atenta Isabel Pereira dos Santos, “garimpeira” de explicações e raciocínios, chamou a atenção para um texto muito importante de interpretação do fenómeno Trump, “The Little Discussed Secret to Trump’s Ruination of America”, por Neal Gabler, publicado a 22 de Agosto no seu “Farewell, America” no Substack.

Em 1998, este autor já tinha chamado à atenção para a forma como o “entretenimento” constituía a principal força de transformação em curso, muito mais do que qualquer outra força, política, religiosa, social, intelectual, filosófica, científica ou artística.

Não tentarei resumir a riqueza da explicação, mas apenas as suas principais conclusões e tentar transpô-las para Portugal.

Trump teria surgido porque os americanos tinham ficado aborrecidos com a sua política, mais do que estavam descontentes com os seus resultados. Eles queriam entretenimento. A política tinha limitações, mas funcionava razoavelmente, certamente melhor do que agora, em que as instituições estão a ser atacadas.

Houve sempre afinidades entre a política e o entretenimento, até porque ambos pretendem satisfazer as pessoas. Roosevelt era mestre na rádio, Kennedy na TV e Reagan era actor. Mas estes usavam os instrumentos do entretenimento ao serviço da política.

Trump é radicalmente diferente: o entretenimento passou a ser o propósito da política. Infelizmente, este passe perverso de génio tornou-se a base de tantas das suas outras perversidades.

Se o público adora o entretenimento reality show de Trump, a comunicação social também [ou ainda mais], um negócio onde o “aborrecimento é o pecado capital”. Tudo na sua administração é pensado como espectáculo. A política externa (incluindo Zelensky na Sala Oval) é uma acrobacia; a “negociação” das tarifas é uma acrobacia; etc., etc.

Sugiro a leitura do texto integral e também a sua tradução e publicação em algum órgão de comunicação social em Portugal, tal o seu interesse.

Gostaria de passar agora aos comentários, de dois tipos: a sustentabilidade desta política nos EUA; as leituras para Portugal.

A política de Trump não é sustentável a nível pessoal e menos ainda a nível institucional, do partido republicano. A incerteza que resulta das surpresas políticas é má para a economia, tal como as tarifas, atacar a Reserva Federal e aumentar os défices públicos. As sondagens já estão em queda e isso seria negativo, embora também tenha de se acrescentar que a destruição das instituições democráticas pode colocar em causa a representatividade dos próximos actos eleitorais. Finalmente, é inconcebível como o partido democrata não percebeu o que estava em causa em 2024 e apresentou candidatos tão fracos, primeiro Biden e depois Kamala Harris.

Em Portugal, é extraordinário como é que nem a comunicação social nem os mais ardentes adversários de André Ventura ainda não perceberam que estão a ser completamente manipulados e que são as suas principais forças de propaganda, segundo o velho princípio de que não existe má publicidade. Para terminar, o PS tem a certeza de que José Luís Carneiro é melhor que Kamala Harris?

Relacionado

Lufthansa irá arcar com eventuais remédios diretamente para entrar na TAP, afirma Governo

Lufthansa irá arcar com eventuais remédios diretamente para entrar na TAP, afirma Governo

Respondendo a perguntas da líder parlamentar do PCP Paula Santos sobre a operação, Hugo Espírito Santo lembrou que “existe o compromisso de que o comprador irá arcar com os remédios regulatórios diretamente”, mas rejeitou especular sobre as condições e obrigações que o executivo comunitário possa vir a decidir enquanto guardião dos tratados europeus em matéria de concorrência.