Francisco Cunha Carvalho, Disruptive Leaders no AESE Executive MBA e Teaching Fellow da AESE Business School

O empreendedor humanista

O mundo precisa de mais empreendedores humanistas, que sirvam de alavanca positiva no desenvolvimento das empresas em três dimensões estratégicas fundamentais: empreendedora, sustentável e humana.

As empresas, enquanto organismos vivos da sociedade, devem ser agentes fundamentais na preservação dos valores humanistas e na forma como nos relacionamos — seja entre colaboradores, seja na relação com todos os stakeholders de uma organização. Esta responsabilidade torna-se particularmente relevante nas grandes e médias empresas, pela sua dimensão e impacto no ecossistema económico. No entanto, não é menos importante nas pequenas empresas e startups, onde a proximidade e a influência do líder se fazem sentir de forma ainda mais direta e impactante.

Um líder empreendedor deve ser visto como um agente de mudança, de inovação e de desenvolvimento, não apenas nos negócios, mas, acima de tudo, na transformação de pessoas. Nesse sentido, o mundo precisa de mais empreendedores humanistas, que sirvam de alavanca positiva no desenvolvimento das empresas em três dimensões estratégicas fundamentais: empreendedora, sustentável e humana.

Idealmente, estas dimensões deveriam interagir diariamente dentro de uma organização, de forma a melhorar o seu desempenho financeiro, organizacional, social e ambiental. O conceito de empreendedorismo humano pode ser entendido tanto como uma extensão, como uma reinvenção do empreendedorismo tradicional. Baseia-se na ideia de que o comportamento empreendedor deve ir além dos objetivos económicos, incorporando também uma preocupação real com as pessoas, sociedade e planeta.

Todos os empreendedores assumem riscos e inovam para resolver problemas e satisfazer necessidades. Contudo, os mais humanistas fazem-no a partir de uma visão mais holística, que inclui uma forte preocupação com o bem-estar dos colaboradores, com a equidade e inclusão social, bem como com a responsabilidade ambiental.

Esta tipologia de líderes incorpora organicamente os princípios da Responsabilidade Social Empresarial (RSE). Trata-se de uma abordagem que promove práticas éticas e sustentáveis, que vão além da maximização do lucro. Como consequência, as empresas mais humanas tendem a considerar os interesses de todos os stakeholders, e não apenas dos acionistas, o que implica uma governance mais equilibrada e equitativa. Além disso, o estilo de liderança associado a esta visão caracteriza-se por estar centrado nos colaboradores e nas relações, em vez de se basear na autoridade e no controlo.

Infelizmente, hoje, e em paralelo com outras evidências negativas nas dimensões política e social, assistimos também a tendências preocupantes no plano comercial e económico, que caminham, em certas geografias, para o desumano. Exemplos disso são o aumento da assimetria digital a nível global, o impacto que a inteligência artificial está a trazer para grupos etários e sociais mais infoexcluídos, a valorização excessiva do lucro a curto prazo e, por vezes, relações menos transparentes entre negócios e política.

Vivemos, por isso, tempos difíceis que exigem empreendedores e líderes responsáveis, éticos e resilientes, capazes de contrariar estas evidências menos positivas. Neste contexto, o devem procurar satisfazer todas as partes interessadas e desenvolver um ambiente de trabalho favorável e motivador. Só assim as empresas conseguem aumentar a sua atratividade no mercado de trabalho, atrair e reter os melhores talentos e, simultaneamente, fortalecer a produtividade e os níveis de inovação, conduzindo, em última análise, a um desempenho superior face aos concorrentes.

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