O que tem a atitude de David Byrne em comum com a equipa da Casa Capitão, o novo espaço cultural que está prestes a abrir no Beato Innovation District, em Lisboa? Para além de uma filosofia de partilha e experimentação, têm em comum um princípio sagrado que se sintetiza assim: alergia à nostalgia. Quer isto dizer que se faz a apologia do “novo” só porque sim? Nada disso. Tal como Byrne, na Casa Capitão o novo faz-se de inovação, renovação e novos olhos. No sentido da descoberta, de mostrar o que ainda não foi feito.
A estrutura por detrás deste novo espaço, a CTL – Cultural Trend Lisbon, dá que falar há 16 anos pelos seus vários projetos. E não são assim tão poucos. Mas um deles destaca-se claramente. O Music Box, “um híbrido entre uma sala de espetáculos e um espaço de dança.” E um marco na noite lisboeta, que fecha portas este mês. Mas não há tempo para lamentações. Esse fantástico tubo de ensaio dá agora lugar a um espaço que aposta numa “programação de autor, eclética”, e que pretende dar “visibilidade a artistas e autores relevantes no panorama nacional e internacional, impulsionando novos projetos” e servindo de palco ao que se faz na cidade.
Na pandemia, criaram aqui um conceito pop-up. Voluntarismo, anseio de dar voz e espaço às artes confinadas. Mas o edifício não tinha condições para fazerem o que queriam. Então, começaram do zero. Ou melhor, ficaram as paredes e atacaram o miolo que ameaçava ruína.
“Todos estes espaços do Innovation District são uma cedência durante muitos anos, mas todo o licenciamento, todas as obras e todo o investimento é nosso”, garante Gonçalo Riscado, gestor cultural e um dos cofundadores da CTL e da Casa Capitão. “O investimento é muito grande”, realça. Estamos a falar de 4,5 milhões de euros – 45% financiamento bancário, 14% advém do PT2030, no domínio da inovação produtiva, e 41% entre patrocínios e capitais próprios. “Mas é feito com a garantia de um período fundamental para esta atividade, 40 anos”, sublinha Gonçalo.
E antes de entrarmos no nº 119 da rua do Grilo, o JE quis saber como está a noite lisboeta. “Primeiro temos de responder a esta questão: ‘o que é a noite?’”, dispara Gonçalo. Acima de tudo, é um “espaço de encontro, de cultura, de libertação. E esses espaços de cultura – que têm programação, que são estudados e desenvolvidos ou por coletivos, ou por indivíduos – estão a desaparecer em Lisboa”. E alerta: “o que temos são coisas muito iguais e que, ao longo dos anos, têm vindo a crescer de forma descontrolada, como a venda de bebidas, a todo o custo, para a rua, sem regras”. Sendo Gonçalo Riscado uma pessoa que consome cultura, deixa outra pergunta no ar. “Onde estão os espaços que acolhem os novos artistas e dão oportunidade ao que emerge?”. No fundo, dar espaço e nutrir os tais novos olhos.
Construir a cidade é dar espaço à cultura urbana
A construção das cidades precisam desses espaços. Aliás, são críticos e centrais para a cultura urbana. “E não tem a ver só com a noite”, diz Gonçalo. “Uma cidade como Lisboa não se deve tentar comparar a Londres ou Paris. Onde pode distinguir-se é na efervescência da cultura de base”, acrescenta. É precisamente a escala humana e de proximidade que Lisboa tem de potenciar, “dando oportunidade ao que de novo surge. Isso é, também, um atrativo turístico. Para além de ser fundamental para o exercício dos direitos culturais das pessoas”.
Enquanto agente cultural, sublinha, “hoje é impossível dissociar qualquer temática da habitação. E se uma cidade não tem pessoas que nela trabalham, estudam, vivem, de diferentes gerações, e que querem ali exercer os seus direitos culturais – então, vamos deixar de ter cidade.” Fala com conhecimento de causa. “Nós trabalhamos programação há muitos anos e a programação é algo que está a acontecer constantemente. O novo e a descoberta são uma constante”. Mas, para isso, acrescentamos, e Gonçalo subscreve, é preciso que haja massa crítica.
Três dias de portas abertas a celebrar a criação
Uma casa, mesmo que seja de um Capitão, não se constroi de cima para baixo. Mas nesta visita do JE, ainda com obras em curso, frenesim humano e de máquinas, fomos do terraço ao céu, para vislumbrar um vulcão quase, quase a entrar em erupção. Preparados? As portas abrem-se a todos os que quiserem conhecer a Casa Capitão. Vão ser três dias de arromba, com entrada livre, de 19 a 21 de setembro.
“O rés do chão é a nossa sala de espetáculos principal, que leva até 400 pessoas em pé. Versátil, pode ser adaptada para usarmos durante o dia para performances, oficinas, conferências… O palco pode subir ou ficar ao nível do chão”, diz Gonçalo Riscado visivelmente entusiasmado. “O primeiro andar é uma zona mais de restaurante, bar, onde vamos ter um elemento central ao nosso espaço, que é o quiosque”. No fundo, será uma espécie de estante de livros com curadoria, que vai mudar a cada dois meses, sensivelmente. “A primeira curadora é a Joana Guerra Tadeu. Fizemos uma parceria com a Ler Devagar para termos os livros disponíveis. As pessoas podem comprá-los, mas não somos nem vamos ser uma livraria. O principal objetivo é fazer programação a partir dos livros”, explica. O terraço, o sótão e o pátio são os outros espaços que compõem o tutano da Casa. Mais tarde, lá para o final do ano ou início do próximo, será a vez de inaugurar as Galerias, na cave, para acolher residências artísticas.
Mas regressemos à festa inaugural, que vai contaminar todos os espaços da Casa Capitão. E mesmo sabendo da injustiça que é fazer destaques – porque alguém fica sempre em “modo ausente”–, assumimos o ónus e convocamos um projeto que nasceu na Amadora em meados de 2019. Deu os primeiros passos como loja de vinis e rapidamente fez um tour de force e se transformou numa plataforma de produção e divulgação de artistas. A Tabanka Records fez-se ponte entre o passado e o presente da música africana, com palpitações muito fortes das culturas lusófonas, onde a cabo-verdiana é rainha. Por tudo isto, não admira que a Tabanka Records agite a primeira noite da Casa Capitão de portas abertas, a 19 de setembro. Tudo pode acontecer. Certezas, apenas uma: dança, muita dança. Sem olhar a rótulos, estilos ou géneros.
Pausa. Na certeza de que faz sentido repetir. Preparados? Vamos a isto. Os músicos Bbb Hairdryer, Capicua, Conferência Inferno, Diadorim, G Fema, Iguanas, Maria Beraldo, Pedrinho Xalé, Sreya e Vaiapraia já disseram “presente”. Na pista de dança, estão garantidos Caliente Isa & King Kami e Cuca Monga DJ’s com Doce da Casa & Chicharro. Anna Zêpa e Maria Giulia Pinheiro trazem na bagagem a performance Ciranda: Jogo de Palavra Falada, inspirada no Poetry Slam; Cláudia Fonseca é a estrela das histórias para crianças e famílias; Gil Dionísio apresenta Contos e Lenga Lendas, um espetáculo de melodias e cantigas. E não pára. A Nómada Notebooks propõe uma oficina de encadernação artesanal e Lukano Mpasi cruza dança e música em Matxikadu, numa performance que ‘mixa’ eletrónica, hip hop, kuduro e música tradicional angolana. Já para não falar na intervenção de Cosmos by Le Guess Who? (LGW), que é considerado um dos festivais mais inovadores do mundo. O LGW promove sons que muitas vezes são ignorados e apresenta novas perspetivas sobre o que é possível acontecer (fazer?) na música. Na noite de sábado 20, oSótão será do Cosmos.
Muito mais vai acontecer nestes três dias de portas abertas, mas queremos ser spoilers e partilhar alguns nomes já confirmados para os próximos meses. Baiuca, Black Sea Dahu, Bonga, Cari Cari, Destroyer, David Bruno, EU.clides, Greentea Peng, Kaythlin Aurelia Smith, Letrux, Mari Froes, Rodrigo Alarcon, Saul Williams, Sega Bodega, The Wallners, Wavves e Williem Tyler. Parece que as good vibes vieram para ficar.