A doutrina divide-se. Agitado ou batido? A frase ecoa. “Shaken, not stirred” não deixa margem para dúvidas. Numa poltrona, ali ao lado, ouve-se a explicação. “Nunca tomo mais do que uma bebida antes do jantar. Mas gosto que ela seja grande, muito forte, muito fria e muito bem feita. Odeio as pequenas quantidades – especialmente quando sabem mal”. Quem o diz? Bond. James Bond. O comandante-agente secreto ao serviço de Sua Majestade teve uma vida real e andou por Lisboa quando a capital portuguesa era um ninho de espiões a disputar mentiras e rumores.
A informação era o bem mais precioso e qualquer país pagava por ela. A tal poltrona existe, só faltou Bond nela sentado. Mas a imaginação é a nossa melhor amiga, tal como os porteiros de hotel e empregados de bar, que nos garantem ter visto James ali no bar. A literatura, tal como o cinema, também nos inebria de mentiras. Ou, melhor dito, ilusões. Consta que Ian Fleming criou James Bond à boleia das suas idas ao Bar do Hotel Palácio, no Estoril. Mais. No seu primeiro livro, Casino Royale, o autor situa a ação na costa francesa, quando os penhascos da Bretanha são em Cascais, o casino é o do Estoril e os hotéis Hermitage e Splendide são, na verdade, os hotéis Palácio e Parque, também no Estoril.
Outra verdade? Foi o agente dos Serviços Secretos de Sua Majestade que transformou o Dry Martini – chamou-lhe “Vesper” – na bebida mais sofisticada do mundo, indispensável à imagem do macho elegantemente vestido, ás do volante de carros de alta cilindrada, durão implacável contra os maus da fita – os russos – e galã ao serviço de qualquer loura que se atravessasse no seu caminho. Fica a pergunta: será Bond o alter-ego de Fleming?
Fleming. Ian Fleming.
Filho de uma família rica, Fleming estudou no colégio aristocrático de Eton, passou alguns meses na academia militar de Sandhurst, mas não terminou o curso. Foi expulso. Mais tarde, viveu uma temporada na Suíça e na Alemanha, onde aperfeiçoou o seu domínio do francês e do alemão. No regresso a Londres, ingressou na Reuters, a agência de notícias britânica, que o enviou para a URSS algumas vezes. Em Moscovo, o jovem correspondente não se limitou a exercer os seus dotes jornalísticos. A sua missão (também) era outra.
Mas já lá vamos, pois falta um certo enquadramento. Dos empregos que arranjou em empresas financeiras e que nunca lhe interessaram verdadeiramente, não há rasto. Nem interessam para o caso. Foi já na casa dos 30 que Fleming, um bon-vivant elegante e mulherengo bem conhecido nos círculos sociais londrinos, percebeu que podia usar a sua enorme curiosidade intelectual, pensamento objetivo e raciocínio rápido e metódico como trunfos para se candidatar à Naval Intelligence Division (mais conhecida pela sua sigla, NID).
Em maio de 1939, Inglaterra preparava-se para a guerra e a NID estava a recrutar civis por ordem do almirante John Godfrey, o homem aos comandos da Divisão. E antes de seguirmos Fleming na Marinha, fica o parêntesis: muito provavelmente, “M”, chefe dos serviços secretos da série James Bond, teve Godfrey como inspiração.
Foi na Sala 39 do Almirantado, onde, na Primeira Guerra Mundial (1914-18), se concentraram as operações secretas da Marinha Real britânica, que Fleming se instalou na qualidade de tenente da Reserva Voluntária da Marinha. No total, eram 20 pessoas na “39”, entre oficiais da Marinha e civis recém-recrutados. O ambiente é fácil de imaginar: máquinas de escrever ruidosas, mesas de madeira com pilhas de pastas e dossiês e fumo. Muito fumo e beatas de cigarro.
O homem certo no lugar certo?
A Segunda Guerra Mundial estava em marcha. Objetivo do NID? Reunir informações sobre os movimentos da marinha alemã – de dentro para fora. Fleming passava a ser a liaison com o exterior. A sua missão? Negociar com outros serviços secretos e funcionários dos diferentes ministérios civis, sem descurar o seu trabalho como secretário particular do almirante Godfrey. Se fosse um filme de Hitchcock seria “O Homem que Sabia Demais”. Nesta trama, é um tipo no centro de tudo, um vaso comunicante entre os assuntos dos serviços secretos e as missões secretas no estrangeiro. Fleming vibrava. Nascera para isto. Não admira que, em setembro de 1939, a patente já fosse outra: lieutenant-commander.
Com o avanço relâmpago das forças alemãs em França, o agora capitão-tenente da Marinha, foi chamado a mostrar o que valia. Em junho de 1940, foi enviado para o quartel-general do exército francês para convencer o Almirante-Chefe Darlan a levar a sua esquadra para um porto seguro em Inglaterra, para não cair nas mãos dos alemães. A esquadra recuou, mas não foi além de Bordéus. No meio do caos e do pânico da evacuação do pessoal militar e diplomático e da massa de refugiados civis, a esquadra ficou para trás. Mas nem tudo falhou. Fleming conseguiu embarcar num navio inglês o ex-presidente do governo republicano espanhol, Juan Negrín, e o homem que viria a ser o chefe das Forças Livres francesas, o general De Gaulle.
Licença para espiar
Não estamos num livro ou filme de James Bond, mas é o que nos ocorre perante a inventiva de Fleming quando teve de traçar um plano para obter a máquina de codificação especial usada pela marinha alemã. Nome de código: “Operação Ruthless” (implacável). Oficiais ingleses em uniformes alemães iriam pilotar um avião capturado ao inimigo para simular uma colisão no Canal da Mancha e enviar um S.O.S ao navio de resgate alemão. Chegado ao local, a tripulação de falsos alemães apoderava-se do navio, da máquina de codificação e do livro de cifra. Empolgante? Sim, mas nunca aconteceu. Por razões que não ficaram para a história, a operação foi cancelada.
Em fevereiro de 1941, Fleming estava em Tânger, Marrocos, para inspecionar as informações navais naquela zona neutra. Levava consigo, ao estilo James Bond – “who else”? – uma caneta-tinteiro falsa, que além de um tubo de gás lacrimogéneo também escondia uma cápsula de cianeto. Perguntar porquê é despropositado. O suicídio seria sempre preferível a um interrogatório da Gestapo.
E agora que falámos em gadgets de agente secreto, cruzamos o Atlântico na companhia de Fleming, que visitou os Estados Unidos por diversas vezes durante a guerra, para promover a colaboração com o Reino Unido no âmbito da intelligence. Em Nova Iorque, conheceu o milionário canadiano William Stephenson, que construíra um centro de treino para agentes secretos em Oshawa, nas margens do Lago Ontário. A especialidade dos instrutores? Várias. Abertura de cofres, manuseamento de explosivos, ateamento de fogos, utilização de rádios, aparelhos de escuta e códigos. Resumindo, em Oshawa, Fleming aprendeu diversas estratégias para sobreviver em situações perigosas. E embora estivesse lá apenas como observador, consta que participou entusiasticamente nos treinos.
Terá sido em Oshawa que, ainda sem o saber, percebeu que tipo de agente secreto seria Bond: corajoso, eficaz, indisciplinado, romântico q.b. – sexista, na perspetiva de muitas mulheres –, e até racista, em diversas circunstâncias. A verdade é que o cinema suavizou consideravelmente a misoginia de Bond, comparando com o protagonista das obras de Fleming.
Fora das páginas dos livros, a guerra prossegue. Em 1942, Fleming põe em marcha mais uma ideia da sua lavra: a 30 Assault Unit, ou “30AU”, composta por tropas anglo-americanas que tinham como missão apreender documentação secreta do inimigo. As primeiras operações acabaram por fracassar, mas a eficácia da 30AU foi aumentando à medida que a guerra avançava. Entre os seus maiores triunfos está a apreensão de uma máquina de codificação Enigma e a apreensão de um vasto conjunto de diários, atas e relatórios da Marinha alemã e italiana. No final da guerra, Fleming já andava com ideias de escrever uma história de espiões. Quando viajou até Kingston, capital da Jamaica, para assistir, como convidado, a conversações entre as marinhas britânica e americana, decidiu fazer da ilha a sua nova casa.
Aos 44 anos, o solteirão Fleming terá sucumbido ao stresse (pânico?) provocado pelo casamento iminente com Anne Charteris. Fechou-se na sua casa caribenha e, durante quatro semanas, não largou a máquina de escrever. Casino Royale nasceu ali, em Goldeneye, o nome que deu à sua propriedade em Kingston. Ian Fleming chegou tarde à escrita, mas não mais parou. Em dez anos frenéticos escreveu 12 livros protagonizados por James Bond, textos jornalísticos, alguns contos e apontamentos. Não é um nome maior da Literatura. Ele sempre o soube. Mas não foi isso que refreou os ânimos dos leitores e fãs da saga. Numa década vendeu mais de 40 milhões de cópias e ainda viu duas adaptações ao cinema em vida. Teve motivos para celebrar bebendo um “Vesper” ‘shaken, not stirred’) por entre espirais de fumo. Tê-lo-á feito, certamente, até morrer de ataque cardíaco numa partida de golfe. Tinha 56 anos.
Tudo isto a pretexto da obra publicada recentemente pela editora William Morrow, Talk of the Devil: The Collected Writings of Ian Fleming, que reúne textos jornalísticos, outros escritos ocasionais, e dois contos – “A Poor Man Escapes” e “The Shameful Dream” –, além de uma série de fotografias a preto e branco de Ian Fleming, o homem que queria ser Bond. James Bond.