IA: o eterno confronto entre ética, confidencialidade e realidade

A ética e a confidencialidade estão identificadas como as prováveis primeiras vítimas da Inteligência Artificial (IA). Mas isso não impede que o sistema tenha já ultrapassado o limiar da inevitabilidade. A ACEPI leva o debate sobre o estado da arte à condição de protagonista do Portugal Digital Summit’23.

IA: o eterno confronto entre ética, confidencialidade e realidade
Inteligencia Artificial IA (1)

Todos os debates em torno da Inteligência Artificial (IA) – principalmente sobre IA generativa – têm como foco questões de ética por um lado, e de confidencialidade por outro. Este simples facto, observável em todos os fóruns onde o tema está em discussão, implica que ética e confidencialidade são os elementos mais expostos e por isso mais em causa quando se fala sobre IA. O painel ‘How companies are preparing for a IA-first world’ – no âmbito do Portugal Digital Summit’23 – uma organização da ACEPI, Associação da Economia Digital, de que o Jornal Económico é media partner – foi disso um exemplo.

Num quadro em que “é impossível liderar o mercado pelo preço” – do ponto de vista das grandes empresas, a Altice, uma das líderes do mercado, optou exatamente por responder pela fiabilidade das plataformas e pela segurança, explicou Paulo Rego, diretor de produto da empresa. Com o suporte muito musculado da investigação, centrada no Altice Labs (em Aveiro), a resposta aos medos associados à IA é, por isso, segurança.

Para as empresas, disse ainda, esta deve ser uma preocupação central, sendo certo que o princípio subjacente é claro: as empresas que não apostarem nas soluções de IA estão condenadas, num curto prazo de três anos, a tornarem-se “invisíveis”. Ou seja, a mensagem é: não há como deixar de investir em IA, pelo que a melhor opção é enfrentar os problemas que os analistas já colocaram em frente do sistema e lidar com eles.

Neste quadro, tudo parece ir no sentido errado: uma utilização cabal dos sistemas de IA implicam uma transferência (voluntária) de dados pessoas, sem os quais o próprio sistema não será minimamente funcional. Aliás, Nuno Moura Pinheiro, head of data of analytics da DXC Technology, disse isso mesmo: “o sucesso de um sistema de IA decorre da qualidade dos dados recolhidos” – sendo nesse quadro que “a confidencialidade dos dados é a maior preocupação” do sector.

Não é seguramente a única. Gustavo Miller, head of marketing da Defined, centrou parte da sua intervenção no que considerou ser a qualidade da própria informação. E referiu um exemplo pessoal em que uma informação do Chat GPT se revelou desatualizada em pelo menos dois anos. Para além da evidência de que há uma preocupação transversal em lançar dúvidas sobre aquele sistema (parece que pioneiro), a intervenção de Gustavo Miller seguiu no sentido de que esta diferença entre informação e realidade constitui por si um racional de negócio: a fiabilidade da data que um sistema oferece aos seus clientes.

Mas não deixou de referir que a tecnologia está um passo à frente da identificação dos problemas. Isto é, quando um sistema dá mostras de ter sido invadido pela dúvida, qualquer que seja, dos seus utilizadores, já o próprio sistema está a gerar formas de escapar. Uma espécie de fuga para a frente.

Sobre esta questão, Paulo Rego disse que “um dos grandes problemas da IA é precisamente o cruzamento da informação”. Sendo certo que a quantidade informação, base do sistema, implica, quanto mais ela for, a multiplicação das multiplicações, pode haver um ponto em que a gestão deixa de ter racionalidade.

De qualquer modo, todos os intervenientes no processo foram claros quanto à IA: para além de ser (mais ou menos) obrigatória, implica “maior conhecimento do cliente, diminuição dos custos do negócio e eficiência de gestão”, ainda nas palavras de Paulo Rego.

A IA é por isso todo um mundo novo, com duas caraterísticas fundamentais: já é incontornável – e quem pensar o contrário ficará irremediavelmente obsoleto; e tem identificados os principais perigos. Pelo menos aqueles que estão num horizonte previsível – o que permite estabelecer regras, criar ferramentas de defesa e organizar antídotos que permitam isolar esses perigos e acabar com eles. Em princípio. De fora ficam para já, evidentemente, os outros perigos: aqueles que ainda ninguém conseguiu antecipar.

Tudo isto ficou claro desde a primeira hora do Portugal Digital Summit’23. Luísa Ribeiro Lopes, dirigente da ACEPI, deixou claro, na sua intervenção no painel de abertura, que “a IA veio para ficar”, porque subtrai as qualidades humanas à necessidade de cumprir tarefas aborrecidas, mas principalmente “porque cria valor” – o que implica racionalidade de negócio. Com 1,75 milhões de domínios portugueses registados – dos quais 155.525 apenas em 2022, um recorde anual – as empresas portuguesas que já se aperceberam da inevitabilidade da opção pela IA estão, disse, no bom caminho para participarem nesta revolução industrial, mais uma, desta vez no mundo digital.

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