Laura Dominguez Couselo, Senior Consultant da FI Group Portugal

Hidrogénio verde, ‘hype’ ou novo paradigma?

Os apoios financeiros nesta área contribuem para novas formas de produção e, também, para novos modelos de negócio, mais eficientes e fundamentados no conceito da economia verde.

Em plena corrida para reduzir a dependência das importações de energia na Europa, inscrita como um dos objetivos cruciais para a transição climática, o hidrogénio tem sido um protagonista indiscutível numa série de círculos, tanto políticos como empresariais. Mas afinal de contas, será o hidrogénio verde a derradeira resposta a estes problemas?

Por forma a responder a esta questão, torna-se imprescindível analisar diversas variáveis, quer no plano económico e de investimento da União Europeia (UE) quer na capacidade de produção.

A definição da Estratégia Europeia para o hidrogénio, com metas e objetivos comuns, representa um passo firme da aposta europeia pela especialização na produção em bloco deste gás renovável. Através da Aliança para o Hidrogénio Verde, a UE pretende investir até 470 mil milhões de euros na implementação de projetos que visem a produção de hidrogénio verde enquanto veículo de descarbonização até 2050.

Trata-se de um objetivo realista, uma vez que as emissões de gases com efeito de estufa ao longo de todo o ciclo de produção de hidrogénio verde são próximas de zero. De acordo com dados divulgados pela Comissão Europeia em 2021, menos de 0,1% do hidrogénio produzido na Europa é obtido por eletrólise da água. Neste contexto, torna-se necessário afirmar que existe, de facto, uma margem de crescimento exponencial nesta área que, aliado aos instrumentos de apoio financeiro e às medidas regulatórias, compreende uma nova área a explorar por parte das empresas europeias.

Para que o hidrogénio se possa denominar de renovável ou “verde”, a eletricidade necessária para o processo de eletrólise da água, deve ser produzida a partir de fontes renováveis (p. ex. solar ou eólica). Segundo dados publicados pelo Conselho da União Europeia, em 2022 a UE produziu 2 641 TWh (terawatt-hora) de eletricidade, dos quais quase 40% provieram de fontes renováveis.

No mesmo ano, a quota de eletricidade produzida a partir de fontes renováveis em Portugal representou 63%, sendo que este valor tem crescido progressivamente nos últimos anos. Assim, os valores asseguram a consistência da produção de energia elétrica renovável em Portugal, que apresenta um crescimento robusto, ano após ano. Isto deve-se, em grande medida, à aposta crescente neste tipo de produção, conjugada com as caraterísticas inatas de Portugal (300 dias, em média, de sol anuais).

Desta forma, consegue-se garantir uma produção estável, sendo ainda possível um aumento da capacidade graças à nova estratégia para a produção nacional de hidrogénio verde. Os apoios financeiros nesta área contribuem para novas formas de produção e, também, para novos modelos de negócio, mais eficientes e fundamentados no conceito da economia verde.

No domínio das tecnologias, verificam-se algumas condicionantes, sobretudo no que concerne o elevado custo de fabricação e o escasso número de fabricantes. A Europa detém cerca de 30% de toda a capacidade global de fabricação de eletrolisadores e fornece a grande maioria destes sistemas no mercado europeu.

Neste domínio, encontram-se em curso dois ambiciosos projetos aprovados no âmbito do IPCEI – Projetos Importantes de Interesse Comum Europeu, num montante total de 10,8 mil milhões de euros em financiamento público. O objetivo é apoiar tanto fabricantes de eletrolisadores como fornecedores de matérias-primas para atingir uma capacidade total de produção de quase 12,4 GW em sete países.

No contexto empresarial, o desenvolvimento de hubs ou regiões de hidrogénio, como sucede nas Astúrias (Espanha), Bourgogne (França), Limburg (Bélgica) ou no Médio Tejo em Portugal, unido à proliferação de ecossistemas e agrupamentos de empresas no território europeu, demonstra-nos que uma postura de cooperação será o único caminho viável para que o hidrogénio possa vingar.

Para além disso, importa ressalvar que a aplicabilidade do hidrogénio verde não se limita à indústria, mas também a outros setores como a mobilidade. A eletrificação de veículos tem contribuído para uma mudança no paradigma da mobilidade, no qual uma visão mais verde e eficiente é possível. Um bom exemplo disso pode vislumbrar-se na iniciativa europeia H2Accelerate Trucks, que visa fomentar o uso de hidrogénio para descarbonizar o transporte de mercadorias de longo curso em toda a Europa.

Em suma, o trajeto a percorrer está definido, pelo que Portugal pode e, diga-se, deve aproveitar os seus recursos para tornar a sua economia mais sustentável, contribuindo, assim, ativamente para a descarbonização gradual da indústria pesada e, inclusive, do setor dos transportes e mobilidade.

Deste modo, ainda que não seja a cura para todos os males, o hidrogénio verde pode mesmo converter-se num novo e importante recurso no setor da energia.

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