‘Guerra dos tronos’ ameaça 2% do PIB global, diz o FMI

O aumento da guerrilha geopolítica entre chineses e norte-americanos pode ter um impacto negativo a prazo de cerca de 2% do PIB mundial. Os países mais afetados serão, como sempre, os 'desalinhados'. Entretanto, Emmanuel Macron toma o pequeno-almoço em Pequim.

‘Guerra dos tronos’ ameaça 2% do PIB global, diz o FMI
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Os jogos de poder entre os Estados Unidos e a China estão a ter repercussão diretas na economia internacional que, segundo o Relatório das Perspetivas Económicas do FMI publicado esta quarta-feira, terá um impacto negativo “a longo prazo” que pode chegar aos 2% do PIB global. Nada de admirar – dado que é para isso que as tenções entre as duas maiores economias do mundo foram lançadas – mas o lado perverso dos jogos de poder é que o impacto será sentido especialmente nos países em desenvolvimento, mais expostos aos altos e baixos do investimento estrangeiro.

Uma das razões centrais, explica o FMI, é a aproximação das grandes potências às economias que formam o  grupo dos chamados países ‘amigos’ quando se trata de fazer investimentos reprodutivos, o que compromete parte do crescimento mundial e induz a estagnação dos ‘desalinhados’.

A suspensão das cadeias de abastecimento após a pandemia e a dependência do Ocidente em relação à China em certos produtos estratégicos, como semicondutores ou matérias-primas para a transição ecológica, fizeram com que Bruxelas e Washington tendessem para o chamado Friendshoring (em oposição ao offshoring, uma visão mais global do planeta), ou seja, para aproximar as cadeias de abastecimento dos países amigos.

O FMI exemplificou a diferença entre os Estados Unidos e a China em termos da crescente disparidade com o alinhamento dos ‘sindicatos’ de voto nas Nações Unidas desde 2016, tendo concluído que houve uma diminuição no investimento bilateral de aproximadamente 15%. Este facto, diz o FMI, trouxe consequências para o investimento direto a nível mundial, para além dos sistemas de pagamentos internacionais e dos preços dos ativos, que terão efeitos no crescimento económico do planeta.

Os principais afetados por este realinhamento internacional serão os mercados emergentes, alerta o banco, tradicionalmente controlado por administradores europeus (os norte-americanos tomam conta do Banco Mundial). No entanto, os países desenvolvidos não estão isentos de perigos, já que muitos deles têm “stocks significativos de investimento estrangeiro direto em sectores estratégicos” em países rivais.

Além disso, essas tensões decorrentes da fragmentação geopolítica e, portanto, económica, também causam interrupções nas cadeias de fornecimentos e nos mercados de commodities, que têm implicações para o crescimento e a inflação nos países e podem aumentar os problemas já presentes.

Há também riscos financeiros decorrentes dessas tensões geopolíticas. De acordo com a instituição liderada por Kristalina Georgieva, o aumento da incerteza e das saídas transfronteiriças de crédito e investimento que provocam a escalada de tensão entre os blocos “aumentam os riscos de refinanciamento da dívida e dos custos de financiamento dos bancos”. “Também pode elevar as taxas de juro das dívidas públicas, reduzindo o valor dos ativos dos bancos e aumentando os seus custos de financiamento”, explica a agência.

Num quadro em que os Estados Unidos estão a fazer tudo para não serem ultrapassados pela China em termos da liderança económica global – que para muitos analistas é ainda assim inevitável – parece certo, mas o relatório não o diz, que a economia norte-americana está a passar por um processo de ‘desglobalização’, enquanto o regime do Império do Meio faz precisamente o contrário. Recorde-se que num relatório anterior, o FMI concordou com a evidência de que a reabertura da economia chinesa depois do fim da chamada política ‘Covid-Zero’ induziu um assinalável crescimento global imediato.

Vale a pena referir que, como é costume, a Europa vacila: tradicionalmente alinhada com as ‘indicações’ oriundas dos Estados Unidos, os principais dirigentes europeus não t^^em a certeza que ‘abandonar’ a China seja uma excelente ideia. Até porque a ‘desglobalização’ dos Estados Unidos implica novas taxas aduaneiras, ou seja, novas dificuldades em aceder ao mercado interno norte-americano por parte da indústria europeia. Será com certeza por isso que, neste preciso momento, o presidente francês Emmanuel Macron estará prestes a almoçar algures em Pequim.

Entretanto, a Organização Mundial do Comércio (OMC) anunciou também esta quarta-feira que o crescimento do comércio mundial desacelerará para 1,7% em 2023, depois de crescer 2,7% em 2022. Assim como a evolução dos investimentos e o crescimento económico, o comércio é pressionado por fatores geopolíticos e outros fatores exógenos, alerta a instituição. A previsão, no entanto, melhorou em relação à última, em outubro de 2022, em 0,7 pontos percentuais. A instituição indica que o fim da ‘Covid Zero’, que promoveu a procura interna no país asiático, estimulará o comércio internacional ao longo deste ano.

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