Governo procura condicionar negócio da refinaria de Sines

Existe lei-travão à venda de ativos estratégicos, mas é preciso provar ameaças à refinaria e ao país. Governo pode vir a exigir garantias à operação para não colocar entraves ao negócio.

Governo procura condicionar negócio da refinaria de Sines
Castro Almeida

É uma ‘bomba atómica’ que dá armas ao Governo em funções para travar a venda de ativos estratégicos do país. Visa impedir que investidores de fora da União Europeia metam a mão em setores cruciais, como a energia. Foi criada há 12 anos, mas nunca foi usada. A dúvida agora é saber se pode vir a ser usada no negócio Galp/Moeve.

Há condições a cumprir para usar esta ‘bomba atómica’, como provar a existência de ameaças, neste caso, ao funcionamento da refinaria de Sines, ao pipeline que vai até Aveiras (para abastecer a região de Lisboa) e ao abastecimento de combustível ao país.

Segundo o que se sabe até agora, a refinaria de Sines vai pertencer a uma sociedade em que a Galp fica com 20% e os restantes 80% ficam nas mãos da espanhola Moeve. A questão aqui é que a Moeve é controlada pelo fundo soberano de Abu Dhabi (Mubadala), com mais de 61%, e pelo fundo norte-americano Carlyle Group, com 38%.

O JE apurou que um cenário em cima da mesa passa pela exigência de garantias por parte do Governo às duas petrolíferas, que pode passar pela exigência de cláusulas a garantir que a refinaria não será vendida no futuro ou que as empresas continuam a investir no desenvolvimento desta unidade, numa espécie de acordo parassocial.

Esta semana, o ministro da Economia, Castro Almeida, disse que seria “melhor” ter “uma refinaria totalmente controlada a partir de Lisboa.”

Esta posição é exatamente contrária à da ministra do Ambiente e da Energia (que tutela o setor) que aplaudiu o negócio, considerando que a Galp fica a ganhar com a participação numa sociedade que fica com três refinarias, uma em Portugal, duas em Espanha. Curiosamente, o ministério da Economia demorou quase uma semana após o negócio ser revelado para reagir em comunicado, apesar de nem deter a tutela da refinaria.

Para a ‘bomba atómica’ ser usada há condições a cumprir. No cenário de o Governo decidir cancelar o negócio, uma decisão mal fundamentada será previsivelmente contestada em tribunal e revertida.

A refinaria de Sines abastece 90% dos combustíveis consumidos em Portugal, sendo crucial para a independência energética do país. É a maior empresa exportadora a nível nacional.
Após a assinatura do contrato, o Governo tem 30 dias para dar “início a um procedimento de avaliação, mediante decisão fundamentada, a fim de avaliar o risco de tal operação para a defesa e segurança nacional ou para a segurança do aprovisionamento do País em serviços fundamentais para o interesse nacional”.

O regime de salvaguarda de ativos estratégicos estabelece que o Conselho de Ministros “pode opor-se (…) à realização de operações das quais resulte, direta ou indiretamente, a aquisição de controlo, direto ou indireto, por uma pessoa ou pessoas de países terceiros à União Europeia (…) nos casos em que se determine que possam pôr em causa, de forma real e suficientemente grave, a defesa e segurança nacional ou a segurança do aprovisionamento do País em serviços fundamentais para o interesse nacional”.

Espanha conta com oito refinarias: quatro da Repsol, duas da Moeve e uma da BP. O país foi o terceiro maior produtor europeu de produtos petrolíferos em 2023.
Quais as ameaças visadas pela lei? Ameaças à “segurança física e integridade dos ativos estratégicos”; à “permanente disponibilidade e operacionalidade”.

Mas o poder está lá: “O Conselho de Ministros (…) pode decidir opor-se à operação, através de decisão fundamentada (…) e no respeito pelos princípios legais aplicáveis, em particular o princípio da proporcionalidade”. A legislação prevê que a empresa compradora possa solicitar ao Governo a “confirmação de que não será adotada uma decisão de oposição à mesma”.
O Estado detém 8% da Galp, com a família Amorim a deter 20% e a Sonangol a ter 16%. O negócio deve ser fechado este ano, mas tem de ser aprovado por reguladores.

Relacionado

Galp admite novos investimentos em Sines mas pede maior previsibilidade regulatória

Galp admite novos investimentos em Sines mas pede maior previsibilidade regulatória

"A Galp equaciona promover investimentos adicionais, mas estes só serão viáveis com um enquadramento regulatório que permita antecipar a procura futura de longo prazo", afirmou fonte oficial petrolífera, em resposta a perguntas da Lusa, na sequência do apelo da Comissão Europeia para travar o encerramento de refinarias e aumentar a produção de combustíveis na União Europeia (UE).