No fim de agosto, a Nasa pediu a empresas contratadas que se preparassem para construir um reator nuclear capaz de resistir a uma viagem espacial e operar sem manutenção perto do polo sul da Lua. Isto pode soar como ficção científica, mas a agência quer que esse mecanismo esteja pronto para ser lançado até 2030.
Existe um motivo para a pressa. A Rússia pretende ter um reator lunar em operação até 2036, como parte de uma parceria sigilosa com a China. Os americanos já aceleraram o cronograma para superar os rivais.
O que está em jogo é o futuro da exploração espacial.
Estados Unidos e China querem ser os primeiros a estabelecer uma base no satélite natural da Terra, buscar recursos como água congelada e lançar missões rumo a regiões mais distantes do Sistema Solar. Para cumprir esse objetivo, é vital controlar o acesso aos recursos da Lua. E um reator nuclear é o elemento central desse plano.
Os países planeiam ligar os seus reatores só após chegarem à Lua. Mas alguns cientistas alertam que os governos estão avançando rápido demais em uma era de exploração espacial marcada por alguns desastres, como falhas e explosões de foguetes e a queda de um módulo de pouso russo no satélite.
Eventuais falhas envolvendo um reator nuclear poderiam acarretar consequências graves. A queda de destroços espalharia material radioativo. Uma explosão ou derretimento na superfície lunar transformaria regiões inteiras em áreas interditadas.
“Sempre haverá uma corrida espacial e, se a energia nuclear entrar nessa equação, a disputa poderá tomar um rumo potencialmente mais perigoso”, afirmou Edwin Lyman, diretor de segurança da energia nuclear da ONG Union of Concerned Scientists, nos EUA.
Uma análise de especificações técnicas, documentos de licitações e pesquisas acadêmicas, somada a entrevistas com fontes do setor, autoridades governamentais e críticos, oferece o panorama mais claro até hoje de como China, Rússia e EUA tentam concretizar essa ambição nuclear.
Parceria sino-russa
A energia nuclear parece ser a única tarefa central que a China delegou à sua parceira no projeto lunar. Nenhum país tem mais experiência nessa área do que a Rússia. O país pôs em órbita mais de 30 reatores, sobretudo nas décadas de 1970 e 1980, e é líder em energia nuclear para fins civis. Além disso, controla o maior estoque de urânio que não é altamente enriquecido, considerado o combustível nuclear mais seguro para missões espaciais e escasso nos EUA.
“A Rússia praticamente não tem concorrentes no campo da energia nuclear espacial”, disse à agência de notícias russa Tass o presidente do Instituto Kurchatov, Mikhail Kovalchuk —a entidade de pesquisa ajuda a projetar um reator lunar.
A Nasa tenta recuperar o atraso. A agência lançou um reator em 1965, porém o desativou após uma falha na espaçonave. Desde então, os EUA gastaram mais de 20 biliões de dólares em programas nucleares espaciais. Porém, nunca instalaram outro reator.
Fonte de energia indispensável
Qualquer base permanente na Lua requer uma fonte de energia confiável. Reatores nucleares não precisam de luz solar para funcionar e podem ser compactos. Com o projeto adequado, exigem pouca intervenção humana, segundo a Nasa e o Instituto Kurchatov.
Nos primeiros anos, EUA e China precisariam de energia suficiente para manter os equipamentos aquecidos e recarregar os rovers, veículos que percorrem a superfície lunar. Para isso, planeiam usar energia solar e sistemas de energia por radioisótopos.
Esses sistemas convertem em eletricidade o calor gerado pelo decaimento radioativo natural de isótopos. EUA, Rússia e China já usaram esses sistemas no espaço.
No entanto, uma base lunar precisaria de muito mais energia do que esses sistemas são capazes de gerar. Os painéis solares não funcionariam durante as frias noites lunares, que se estendem por mais de duas semanas terrestres. Qualquer sistema de energia próximo ao polo sul da Lua teria de suportar bruscas variações de temperatura.
Moscovo encarregou as suas agências estatais de entregar, até 2036, um reator lunar chamado Selena, destinado a fornecer energia às estações no satélite lideradas pela China. O Selena geraria até 10 quilowatts de eletricidade e poderia operar de forma autónoma por uma década. O reator teria características em comum com um reator anterior projetado para funcionar no Ártico.
A Nasa acelerou o seu cronograma, temendo que um reator russo-chinês possa estabelecer, na prática, uma zona de exclusão na Lua. A previsão é que o Reator Lunar 1 da agência produza 20 quilowatts de eletricidade —aproximadamente o consumo de 16 residências americanas— e funcione por cinco anos sem nenhuma intervenção.
Como primeiro passo, a Nasa planeia usar energia nuclear para impulsionar uma nave espacial rumo a Marte em dezembro de 2028. Isso nunca foi feito antes.
Paralelamente, o Pentágono pretende desenvolver seus próprios reatores espaciais para serem instalados em órbita e na Lua, segundo a Casa Branca.
Os prazos previstos vêm sendo adiados repetidamente, e poucos especialistas dizem acreditar que os países conseguirão cumpri-los. Ninguém dispõe de um módulo de pouso comprovadamente capaz de levar material pesado e potencialmente radioativo até a superfície lunar. Tampouco alguém já instalou um reator em condições de baixa gravidade.
As bases lunares ainda não foram construídas, e a quantidade de eletricidade de que precisariam é uma questão em aberto. Por isso, especialistas afirmam que os projetos dos reatores ainda podem mudar.
“Nada é certo neste momento”, disse o cientista nuclear Julien de Troullioud de Lanversin, professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong.