Óscar Afonso, Diretor da Fac. Economia da Universidade do Porto, Professor Catedrático

Economia turismo dependente

É urgente a diversificação da economia portuguesa para setores de maior produtividade, com realce para a reindustrialização, que teve menos medidas no recente Pacote Económico do que o turismo.

Segundo dados recentes do INE sobre a Conta Satélite do Turismo, este setor explicou 48% do crescimento económico em 2023 (contributo de 1,1 pontos percentuais, p.p., para a variação real do PIB de 2,3%), a refletir um dinamismo do setor muito acima do resto da economia e um peso expressivo, que se acentuou.

De facto, o VAB Direto do turismo aumentou 16,0% em 2023, bastante acima da subida de 10,1% no VAB da economia – o VAB distingue-se do PIB por expurgar os impostos líquidos de subsídios sobre os produtos; Direto significa que se exclui o efeito indireto do turismo nos demais setores.

O peso desse VAB Direto do turismo no VAB da economia subiu para 9,1% em 2023, após 8,6% em 2022, 8,1% em 2019 (antes da pandemia, que provocou fortes oscilações do indicador em 2020 e 2021) e 6,9% em 2016, o primeiro ano da série, o que traduz um incremento de 2,2 p.p. entre 2016 e 2023. Em contraste, registou-se um acréscimo marginal de 0,2 p.p. no peso da indústria transformadora e extrativa (de 14,3% em 2016 para 14,5% em 2022, o último ano com dados) e uma queda de 1,1 p.p. na indústria, energia, água e saneamento (de 18,2% para 17,1%), com origem na energia (de 2,8% para 1,7%) e, em menor medida, na água e saneamento (de 1,1% para 0,9%), áreas que também se inserem na indústria moderna, no âmbito da transição verde.

O peso do VAB Total (Direto e Indireto) do turismo no VAB da economia ascendeu a 12,4% (após 11,8%, 11,6% e 9,5% nos anos anteriores que foram usados acima para comparação), enquanto o peso do PIB total do turismo no PIB da economia (incluindo, assim, o efeito nos impostos indiretos líquidos), atingiu um valor recorde de 12,7% (após 12,1%, 11,8% e 9,7%), que resume a expressão do setor na economia.

Estes dados confirmam que a dinâmica de crescimento económico está bastante dependente do turismo, um setor com baixa produtividade relativa e uma procura muito volátil. A desejada paz na Ucrânia poderá redirecionar fluxos de turismo para o centro e leste da Europa e é também óbvio que, com os padrões atuais, estamos a atingir limites no crescimento da oferta turística, pela pressão sobre as infraestruturas (incluindo aeroportuárias), serviços públicos (saúde em particular), mercado imobiliário e ambiente.

É, por isso, urgente a diversificação da economia portuguesa para setores de maior produtividade, com realce para a reindustrialização, que teve menos medidas no recente Pacote Económico do que o turismo, onde precisamos de evoluir em produtividade, valor acrescentado e maior homogeneidade no território.

Relacionado

Lufthansa irá arcar com eventuais remédios diretamente para entrar na TAP, afirma Governo

Lufthansa irá arcar com eventuais remédios diretamente para entrar na TAP, afirma Governo

Respondendo a perguntas da líder parlamentar do PCP Paula Santos sobre a operação, Hugo Espírito Santo lembrou que “existe o compromisso de que o comprador irá arcar com os remédios regulatórios diretamente”, mas rejeitou especular sobre as condições e obrigações que o executivo comunitário possa vir a decidir enquanto guardião dos tratados europeus em matéria de concorrência.