Dimensão da votação nos partidos árabes incendeia cena política em Israel

Inesperadamente, os dois partidos árabes assumiram uma posição de relevo na complicada envolvente política do país. Ambos agradecem o esforço do ministro Ben-Gvir nesse sentido.

Dimensão da votação nos partidos árabes incendeia cena política em Israel
epaselect epa13330772 Rappelling workers hang a large-scale Likud Party election billboard featuring Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu (L) with US President Donald Trump and fighter jets, in Tel Aviv, Israel, 25 October 2026. Israel will hold its national legislative election to choose the 120 members of the 26th Knesset on 27 October 2026. EPA/ABIR SULTAN

A dimensão da votação nos dois partidos israelitas árabes (Ra’am e Lista Conjunta), que em conjunto alcançaram 19 lugares (mais nove que os que detinham anteriormente), está a deixar a cena política do país num caos ainda mais acentuado que o que já vivia antes das eleições, que decorreram esta terça-feira, 27 de outubro. Completamente apanhados de surpresa – nenhuma sondagem indicava essa possibilidade – os partidos hebraicos estão a tentar encontrar uma resposta.

Por duas vias: o Likud, do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, acusa autoridades estrangeiras (nomeadamente oriundas do Qatar, onde o xiismo tem uma força determinante) de terem interferido de forma fraudulenta na votação; o conjunto de partidos que se lhe opõem (liderados pelo general Gadi Eisenkot), divide-se entre os que são sensíveis ao argumento da fraude e os que preferem aceitar que, em Israel, a comunidade árabe está lá desde sempre e algum dia a sua dimensão (que será de 20% do total) terá de ser reconhecida.

O próprio Gadi Eisenkof está numa posição muito delicada: tem mantido uma postura cautelosa, ou mais propriamente silenciosa, uma vez, ao longo da campanha eleitoral, nunca admitiu qualquer entendimento com os partidos árabes; mas, depois de contados os votos, chegou à evidência de que precisa do seu concurso (no governo ou mais provavelmente num entendimento parlamentar) para defenestrar Benjamin Netanyahu.

 

A reação árabe

O presidente do partido Balad (que, juntamente com o Hadash e o Ta’al, forma a Lista Conjunta, que conseguiu 12 lugares no novo Knesset), Sami Abou Shehadeh, acusa Netanyahu e seus aliados de prepararem o terreno para rejeitarem os resultados das eleições por via de alegações infundadas. “Netanyahu e seus parceiros são pessoas perigosas que estão a construir uma narrativa para justificar a recusa em aceitar os resultados de uma das eleições mais decisivas que este país viu em décadas”, disse, citado pela imprensa israelita.

Do seu lado, o presidente Isaac Herzog disse ter conversado com o chefe do Comité Central de Eleições, Noam Sohlberg, e com o chefe do Shin Bet (a ‘secreta’ interna), David Zini, sobre o pedido do primeiro para investigar as alegações de interferência estrangeira na votação. Para Herzog (que é oriundo do mesmo partido que Netanyahu), a questão deve ser “investigada minuciosamente” e pediu que se evite “manchar” a imagem da comunidade árabe como um todo.

Entretanto, o presidente continua firmemente determinado a promover uma grande coligação ao centro – que pudesse envolver os dois grupos antagónicos: os ‘subsidiários de Netanyahu e os de Eisenkot. O que, na prática, envolveria todo o novo Knesset com a exceção dos partidos árabes.

 

Negócios entre ‘inimigos’

Aparentemente, o caminho desse entendimento já começou. Segundo a imprensa israelita, o Likud estaria disponível para oferecer a Eisenkot um acordo de rotação: Netanyahu governaria a primeira metade do mandato e Eisenkot a segunda (como aconteceu entre Naftali Bennett e Yair Lapid em 2021-22, com muito fracos resultados). Ao mesmo tempo, atribuiria ao grupo de Eisenkot alguns ministérios importantes (mas ainda não especificados).

Para os analistas, é muito improvável que o general admita sentar-se à mesa das negociações com o ainda primeiro-ministro – coisa que, aliás, disse durante a campanha que não faria. Mas, nessa altura, a pressão da dimensão dos partidos árabes não existia. De qualquer modo, é ainda mais improvável que, no caso dessa aliança ‘contra-natura’ acabar por surgir, ela pudesse ser minimamente estável.

Ora, Israel precisa de estabilidade para vencer os desafios que tem pela frente, onde as questões de segurança ganharam realce desde 7 de outubro de 2023.  Um governo que esteja sempre a tentar remediar conflitos internos é tudo menos instável.

O que quer dizer, para alguns analistas, que o país corre o sério risco de ter de repetir eleições – coisa que Herzog está determinado em evitar. Mas esse pode ser o maior de todos os riscos: é que os árabes aperceberam-se finalmente que o seu peso em Israel pode ser determinante para o futuro do Estado hebraico, e que esse peso tem evidência prática com a participação nas eleições. Ou seja: há um novo incentivo para uma diminuição ainda mais drástica da abstenção entre os árabes – que é tradicionalmente muito alta, salvo no caso da última terça-feira.

Quem tem muito em que pensar é o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir: as suas iniciativas inconcebivelmente racistas levadas a cabo nos últimos anos serviram como combustível para acender a vontade dos árabes israelitas de comparecerem em força nas eleições.

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