Democracia e Inteligência Artificial: Perceções e Desafios na Europa e em Portugal

Um novo estudo intitulado “Democracia na Era da IA”, realizado pela Kantar para o Vodafone Institute for Society and Communications, que envolveu mais de 12 mil participantes, em 12 países europeus – incluindo Portugal — traça um retrato dos desafios, expetativas e preocupações dos cidadãos face ao impacto da transformação digital nas sociedades democráticas.

Democracia e Inteligência Artificial: Perceções e Desafios na Europa e em Portugal
leitor_6610119a48c6d_inteligencia_artificial12.jpg

A inteligência artificial (IA) está a transformar profundamente a economia e a sociedade, oferecendo oportunidades para aumentar a produtividade, inovar e reforçar a resiliência democrática. No entanto, também gera riscos, sobretudo ao nível da desinformação, da segurança online e da influência sobre como os cidadãos acedem à informação e participam na vida democrática.

A Europa procura integrar valores democráticos na tecnologia com regulamentos pioneiros, caso do Digital Services Act (DSA) e o AI Act, que promovem transparência, equidade e responsabilização. Contudo, a aplicação das regras é desigual entre os Estados-Membros, o que fragiliza a confiança pública e permite que ameaças como a desinformação persistam.

Um novo estudo intitulado “Democracia na Era da IA”, realizado pela Kantar para o Vodafone Institute for Society and Communications, que envolveu mais de 12 mil participantes, em 12 países europeus – incluindo Portugal — traça um retrato dos desafios, expetativas e preocupações dos cidadãos face ao impacto da transformação digital nas sociedades democráticas. Apesar dos resultados positivos, a satisfação dos portugueses com o funcionamento da democracia permanece modesta, alinhada com a média europeia de apenas 22% de cidadãos “muito” ou “extremamente satisfeitos”.

O estudo citado acima mostra, contudo que o tema da democracia é muito valorizado. Os portugueses consideram que viver em democracia é “muito” ou “extremamente importante”. 84% dos inquiridos neste estudo fizeram esta avaliação, resultando numa das percentagens mais elevadas da Europa e que contrasta com a média europeia de 75%. Além disso, Portugal também se destaca no apoio à liberdade de expressão na internet, sendo o país que mais a defende (64%), um valor também acima da média europeia (52%). Os portugueses (73%) veem o diálogo digital como uma oportunidade para fortalecer a democracia, reforçando a importância de espaços abertos e regulados para o debate político.

 

Media tradicionais apontados como “arma” para combater a desinformação

Portugal e Espanha são os países que mais reconhecem a relevância dos media tradicionais no combate à manipulação de informação. 63% dos portugueses salientam a importância do jornalismo editorial devido à ameaça da desinformação, um número significativamente acima da média europeia (53%), sendo que a televisão e a rádio (69%) continuam a ser os principais meios para verificar a veracidade de conteúdos políticos. Este aumento é especialmente forte entre os 25-34 anos (57%), mas também relevante noutras faixas etárias. Esta confiança nos media clássicos contrasta com a crescente preocupação com os conteúdos políticos gerados por IA, que 39% dos europeus já identificam como uma ameaça à democracia.

Quanto às fake news, 28% dos inquiridos portugueses afirmam ter encontrado notícias falsas com frequência nos últimos meses, ligeiramente acima da média europeia (27%). Embora a sua disseminação seja atribuída a diferentes grupos, os motivos presumidos para tal são semelhantes em todos os países: cerca de metade das pessoas acredita que estas visam enfraquecer adversários políticos e influenciar o resultado das eleições. No entanto, os inquiridos admitem que reconhecer os conteúdos gerados por IA está cada vez mais difícil. Só 24% acreditam ser capazes de identificar imagens criadas por IA num contexto político (31% para imagens gerais). Entre os maiores de 65 anos, apenas cerca de 10% se consideram capazes.

A realidade é que segundo o estudo, as ferramentas de inteligência artificial ainda não são um canal de massas para a informação política. Apenas 11% utilizam regularmente ferramentas como o ChatGPT para se informar politicamente. No entanto, 49% dos inquiridos já usaram uma ferramenta de IA pelo menos uma vez para temas políticos. A utilização varia entre países: Itália lidera (60%), enquanto a Finlândia está no fundo da tabela (39%). Alemanha situa-se perto da média europeia (48%). O ChatGPT é a ferramenta mais usada (35%), seguida por Google Gemini, Meta AI, Copilot, DeepSeek, entre outras.

Os portugueses mantêm uma visão positiva sobre a tecnologia: 38% acreditam que os benefícios da IA superam os riscos, comparado com 30% na média europeia. Ainda assim, 39% dos europeus veem a IA como uma ameaça à democracia, enquanto 32% acreditam que oferece mais oportunidades do que perigos. A ambivalência é clara, 29% permanecem indecisos.

O estudo revela ainda que a maioria dos cidadãos europeus apoia medidas regulatórias como o Digital Services Act (DSA) e o AI Act, com destaque para Portugal, onde cerca de 70% dos cidadãos apoiam a identificação de conteúdos gerados por IA e a atuação das autoridades nacionais para combater discurso de ódio e notícias falsas no mundo digital.

 

O estudo completo está disponível aqui.

Relacionado

Ataques de IA: Estarão as empresas preparadas?

Ataques de IA: Estarão as empresas preparadas?

Ruben Pires2 Nov
"O desafio é garantir que a cibersegurança evolui ao ritmo da adoção da IA, com investimento em competências, monitorização contínua e mecanismos de resposta que permitam atuar antes de um incidente comprometer o negócio", acrescenta o 'managing director' & 'partner' da BCG Lisboa, José Koch Ferreira, em entrevista ao Jornal Económico (JE).
Resultados das tecnológicas testam temperatura dos investidores pela IA

Resultados das tecnológicas testam temperatura dos investidores pela IA

Ruben Pires29 Out
Meta, Alphabet, e Microsoft já apresentaram os resultados do terceiro trimestre. Investidores penalizaram a detentora da Google e a Meta e beneficiaram a Microsoft. Analistas consultados pelo JE referem que os resultados permitem concluir que continuam os avultados investimentos em inteligência artificial e que já existe pressão para que estes se transformem em receita e lucro.