Durante anos discutimos o conceito de cidades inteligentes, circunscrita ao território urbano de um determinado concelho ou município. Mas talvez esteja na altura de admitir que o verdadeiro desafio já não é a cidade, mas sim o território mais amplo, maior do que as próprias fronteiras administrativas. A mobilidade, a energia, a logística e até os impactos das alterações climáticas ultrapassam os limites dos municípios e obrigam-nos a pensar de forma integrada. A 31 de outubro assinala-se o Dia Mundial das Cidades e talvez esta seja a melhor ocasião para refletir sobre a evolução do próprio conceito de cidade inteligente.
Todos os dias, milhões de pessoas deslocam-se entre concelhos para trabalhar, estudar, aceder a determinados serviços ou consumir certos bens. As redes de mobilidade e transportes cruzam fronteiras territoriais e as infraestruturas energéticas, logísticas e de comunicações sustentam regiões inteiras.
Perante esta realidade, torna-se evidente que muitos dos principais desafios urbanos exigem cada vez mais uma visão integrada do território. Mobilidade, sustentabilidade, gestão de recursos, segurança ou resposta a situações críticas são temas que ultrapassam a escala de uma cidade e exigem coordenação entre diferentes entidades, infraestruturas e áreas geográficas em prol de um bom funcionamento.
Com isto, a boa notícia é que a tecnologia de hoje já disponibiliza ferramentas com capacidade para suportar esta transformação. Nunca os territórios geraram tanta informação como atualmente, informação essa que pode (e deve) ser utilizada para um melhor conhecimento de como funcionam as cidades e as regiões.
Atualmente, o verdadeiro valor não está na recolha de dados, já amplamente massificado, mas sim na capacidade de os integrar e transformar em conhecimento útil. Quando diferentes sistemas conseguem comunicar entre si e partilhar informação, os decisores ganham uma visão mais completa da realidade que gerem. Passa a ser possível compreender padrões de mobilidade, antecipar congestionamentos, identificar necessidades futuras de infraestrutura ou responder de forma mais rápida e eficiente a situações imprevistas.
E é neste contexto que a inteligência artificial (IA) assume um papel relevante, não como uma solução isolada ou uma tecnologia com valor por si própria, mas como uma ferramenta que permite acrescentar capacidade de previsão, otimização e apoio à decisão. Através da análise de grandes volumes de informação, a IA pode ajudar a antecipar fluxos de trânsito, prever necessidades de transporte, identificar padrões de utilização e consumo de serviços ou apoiar a gestão mais eficiente de recursos públicos.
Mas nesta reflexão importa sublinhar uma ideia fundamental: um território não é mais inteligente por ter implementada mais tecnologia. A inteligência de um território mede-se pela sua capacidade de utilizar essa tecnologia para resolver problemas concretos e melhorar a vida das pessoas.
Os cidadãos valorizam transportes mais eficientes, serviços públicos mais acessíveis, espaços urbanos mais seguros e uma gestão mais sustentável dos recursos. Não procuram necessariamente mais aplicações ou plataformas digitais dispersas e sem capacidade de comunicar entre si ou resultar num valor acrescentado. Procuram soluções que reduzam tempos de deslocação, simplifiquem interações com a administração pública e contribuam para uma melhor qualidade de vida.
Como tal, a discussão sobre o futuro das cidades não deve centrar-se apenas na inovação tecnológica mas na forma como a tecnologia pode apoiar uma gestão mais integrada, baseada em dados, com um bom desenho de serviços e orientada para resultados concretos.
Claro que o conceito de cidade inteligente continuará a ser relevante, mas talvez esteja a entrar numa nova fase em que o foco deixa de estar apenas na cidade e passa a abranger a relação entre cidades, áreas metropolitanas, regiões, infraestruturas críticas, redes logísticas e portos. Em suma, uma fase em que falamos cada vez mais de territórios inteligentes e conectados entre si.
Esta visão integrada será um dos fatores decisivos para se construir territórios mais eficientes, mais preparados e mais capazes de responder às necessidades das próximas gerações, num momento em que existem tantos desafios relacionados com a sustentabilidade, mobilidade e resiliência.