Concorrência alerta para riscos de monopólio no acesso a chips de Inteligência Artificial

A Autoridade da Concorrência (AdC) emitiu um alerta contundente sobre os riscos estruturais que ameaçam a competitividade no setor da Inteligência Artificial (IA), focando-se especificamente no acesso a chips e hardware essencial.

Concorrência alerta para riscos de monopólio no acesso a chips de Inteligência Artificial
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A Autoridade da Concorrência (AdC) alertou, num relatório de 20 de fevereiro de 2026, que a elevada concentração na cadeia de valor dos chips de IA e a crescente integração vertical dos grandes players criam riscos significativos para a concorrência.

O documento destaca que a rigidez na oferta de hardware, impulsionada por economias de escala e ecossistemas fechados, pode limitar a entrada de novas startups e restringir a inovação no setor da Inteligência Artificial.

O acesso ao hardware — os chips de IA — tornou-se o novo campo de batalha da concorrência global, e as barreiras à entrada estão a tornar-se quase intransponíveis para novos players, segundo a entidade reguladora.

A AdC sublinha que a produção de chips não é apenas uma questão de engenharia, mas de capacidade financeira brutal,. Desde logo aponta os custos de entrada. O design e o fabrico de semicondutores avançados exigem investimentos de milhares de milhões de euros.

Depois aponta a rigidez da oferta. Como existem poucas fábricas (foundries) capazes de produzir na fronteira tecnológica, qualquer pico de procura resulta em preços astronómicos e tempos de espera que asfixiam as startups.

Por fim fala em barreiras à inovação, pois se apenas as “Big Tech” conseguem pagar o acesso ao hardware, a inovação fora destes gigantes é travada logo na base.

O regulador sublinha que a produção destes componentes assenta assim numa cadeia de valor global extremamente concentrada, onde o design e o fabrico são dominados por poucos intervenientes devido a economias de escala massivas e custos de investimento proibitivos.

Esta rigidez na oferta não só inflaciona os preços, como cria barreiras quase intransponíveis para startups e fornecedores de IA de menor dimensão que tentam treinar e implementar modelos avançados.

O cenário torna-se mais complexo com a crescente integração vertical no setor. A AdC observa que os principais designers de chips e fornecedores de serviços de cloud estão a construir ecossistemas fechados, combinando hardware, software e serviços de forma integrada.

O regulador nota uma tendência perigosa: as empresas que desenham os chips são, muitas vezes, as mesmas que oferecem serviços de Cloud Computing. Estas empresas têm acesso a dados sensíveis sobre como os seus concorrentes (que usam a sua cloud) estão a treinar modelos.

Depois, podem usar o domínio nos chips para forçar a adoção dos seus serviços de software ou cloud, excluindo competidores mais pequenos

Este fenómeno, potenciado por parcerias estratégicas e investimentos cruzados, pode resultar num acesso privilegiado a informações comerciais sensíveis e reforçar a dependência tecnológica (lock-in). Um exemplo crítico apontado é a plataforma CUDA da Nvidia, cuja adoção generalizada cria efeitos de rede que consolidam o domínio da empresa e reduzem a interoperabilidade, dificultando a transição de utilizadores para tecnologias concorrentes. Isto é, como a maioria dos programadores de IA utiliza CUDA, mudar para outro fornecedor de chips exigiria reescrever anos de código.

A falta de compatibilidade entre diferentes marcas de hardware cria um ecossistema fechado que “prende” os clientes ao fornecedor dominante.

Para mitigar estes estrangulamentos, o regulador aponta a infraestrutura pública de Computação de Alto Desempenho (HPC) como uma alternativa viável para democratizar o acesso ao treino de modelos. No entanto o impacto desta solução depende estritamente da definição de critérios de acesso que sejam transparentes, objetivos e não discriminatórios.

Esta intervenção da AdC insere-se numa estratégia de atuação preventiva, somando-se a análises anteriores sobre dados e mercados laborais, com o objetivo de evitar que o poder de mercado em segmentos adjacentes impeça a inovação e a concorrência justa no futuro da economia digital.

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