Banca portuguesa com exposição limitada ao Médio Oriente mas existem riscos indiretos

A banca portuguesa apresenta uma exposição direta ao Médio Oriente de quase 600 milhões de euros. A exposição ao Médio Oriente não constitui, atualmente, um fator de risco material para os bancos portugueses, conclui a EBA.

Banca portuguesa com exposição limitada ao Médio Oriente mas existem riscos indiretos
EBA 10-01-2012 autoridade bancaria

Os principais bancos portugueses mantêm uma exposição direta relativamente contida ao Médio Oriente, apesar de um crescimento registado na segunda metade de 2025, num contexto de escalada de tensões na região que tem levado a evacuações de bancos internacionais e a preocupações com choques energéticos, segundo a Autoridade Bancária Europeia (EBA) que publicou hoje o seu Painel de Riscos (RDB) do quarto trimestre de 2025.

Os bancos portugueses têm uma exposição direta ao Médio Oriente, dominada por empréstimos e adiantamentos (loans and advances), de 583 milhões de euros. O número que consta do relatório da EBA, foi avançado inicialmente pelo Eco.

De acordo com o relatório, que avalia a solidez do setor bancário europeu e inclui um anexo detalhado sobre posições internacionais, a exposição total da banca da União Europeia e do Espaço Económico Europeu à região — que inclui países do Golfo e outras economias como Israel ou Líbano — aumentou de 123 mil milhões de euros em junho para 132 mil milhões em dezembro de 2025. Ainda assim, Portugal representa apenas cerca de 0,44% deste total, confirmando o peso marginal da região no balanço dos bancos nacionais.

No caso português, a exposição on-balance — que inclui empréstimos, depósitos e títulos — subiu de 478 milhões de euros para 583 milhões no espaço de seis meses, um aumento de cerca de 22%. Este crescimento foi quase integralmente impulsionado por crédito, com os empréstimos e adiantamentos a representarem praticamente a totalidade da exposição no final do ano.

Os dados revelam uma subida transversal nos principais segmentos: o crédito a instituições financeiras passou de 147 para 188 milhões de euros, enquanto o financiamento a empresas não financeiras duplicou praticamente, de 53 para 105 milhões. Já o crédito a particulares, que representa a maior fatia, aumentou de 250 para 290 milhões de euros, sugerindo ligações associadas a remessas ou relações económicas com a região.

Em contrapartida, os investimentos em títulos de dívida desapareceram completamente — caindo de 27 milhões para zero — e não se registam posições relevantes em bancos centrais.

Do lado do passivo, os depósitos provenientes do Médio Oriente registaram uma ligeira subida, de 387 milhões para 407 milhões de euros. A base continua dominada por depósitos de particulares, com uma presença ainda limitada de empresas e ausência praticamente total de entidades públicas ou instituições financeiras. Estes fluxos mantêm-se estáveis e assumem um papel secundário no financiamento da banca portuguesa.

Outro ponto relevante é a inexistência de exposição significativa fora de balanço. Ao contrário de países como França ou Espanha, onde os bancos apresentam volumes elevados de garantias e compromissos, Portugal não regista valores materiais nesta rubrica, o que reforça o perfil conservador do sistema financeiro nacional.

A comparação europeia evidencia diferenças marcadas: a França concentra cerca de metade da exposição total da UE/EEE ao Médio Oriente, com mais de 60 mil milhões de euros, seguida por Espanha, Alemanha, Países Baixos e Itália, todos com posições superiores a 10 mil milhões. Neste contexto, a presença portuguesa é residual, limitando o impacto potencial de choques externos, como tensões geopolíticas ou flutuações no mercado energético.

Apesar do crescimento recente, a exposição ao Médio Oriente não é considerada um risco material para a banca portuguesa. O aumento observado permanece contido e concentrado em segmentos tradicionais de crédito, num contexto em que os indicadores globais do setor — incluindo solvabilidade, liquidez e redução de crédito malparado — continuam a mostrar resiliência.

Ainda assim, o relatório do European Banking Authority sublinha que eventuais deteriorações no contexto geopolítico poderão ter impactos indiretos, nomeadamente ao nível reputacional ou de cumprimento regulatório, sobretudo em matérias relacionadas com sanções internacionais e prevenção de branqueamento de capitais.

Em síntese, os dados do final de 2025 apontam para uma exposição controlada e alinhada com a dimensão da banca portuguesa, refletindo uma estratégia prudente e fortemente orientada para o mercado doméstico.

A European Banking Authority (EBA) publicou hoje o seu Painel de Risco (RDB) do 4.º trimestre de 2025, confirmando que o setor bancário da UE/EEE continua robusto, com forte capitalização, ampla liquidez e sólida qualidade dos ativos, mesmo com o aumento da incerteza económica global após o reacender do conflito no Médio Oriente. Pela primeira vez, o RDB é publicado juntamente com o novo painel do Regulamento de Requisitos de Capital/Diretiva de Requisitos de Capital (CRR3/CRD6), que substitui o anterior relatório de monitorização de Basileia 3.

O Painel de Risco apresenta informações sobre as exposições diretas dos bancos da UE/EEE a contrapartes localizadas no Médio Oriente, que totalizavam 132 mil milhões de euros no final de 2025.

Estas exposições incluem cerca de 47 mil milhões de euros em empréstimos e adiantamentos a bancos e outras instituições financeiras e cerca de 33 mil milhões de euros a empresas não financeiras (NFCs).

Os bancos portugueses (Caixa Geral de Depósitos, Millennium BCP, Novobanco e Santander Totta) representam apenas uma fração pequena deste montante, estando claramente fora do “top 5” das instituições europeias mais expostas, segundo dados recentes da Autoridade Bancária Europeia (EBA).

Embora as exposições permaneçam limitadas (menos de 0,5% do total dos ativos dos bancos da UE/EEE), a escalada das tensões poderá gerar efeitos indiretos, nomeadamente através de preços de energia mais elevados, pressões inflacionistas, menor crescimento económico global e perturbações nas cadeias de abastecimento. Estes efeitos seriam particularmente relevantes em setores intensivos em energia, como transportes, construção e alguns segmentos da indústria transformadora.

De acordo com dados de exposições a contrapartes na região (em milhões de euros), os Emirados Árabes Unidos concentram a maior fatia, com cerca de 54.586 milhões de euros, seguidos do Qatar, com 29.407 milhões. A Arábia Saudita surge em terceiro, com 23.196 milhões, enquanto o Bahrein regista 8.282 milhões e Israel 8.052 milhões.

Outros países apresentam valores mais modestos: Kuwait (3.948 milhões), Omã (3.590 milhões), Iraque (451 milhões), Líbano (310 milhões), Jordânia (259 milhões) e Irão (38 milhões).

A exposição total dos bancos supervisionados pelo BCE ao conflito no Médio Oriente não ultrapassa 1% do total de ativos, com as posições diretas em Israel e Irão a serem particularmente modestas (cerca de 0,7% do capital CET1 no lado dos ativos). Mesmo incluindo os países vizinhos do Golfo, os valores permanecem “bastante contidos”.

Responsáveis dos principais bancos portugueses têm reiterado, nos últimos dias, que o sector está bem preparado para eventuais choques decorrentes da instabilidade geopolítica. Os CEO têm sublinhado a solidez em termos de capital, liquidez e capacidade de financiamento, recordando que as instituições portuguesas saíram mais robustas de crises anteriores.

A EBA defende que embora existam riscos indiretos — nomeadamente através de potenciais subidas nos preços da energia e da inflação —, a exposição direta da banca nacional é limitada e não representa um risco sistémico.

 

Relacionado