António Mendonça, Bastonário da Ordem dos Economistas, Professor Jubilado

Balanço de 2025: ARTE e AI 2 os projetos de referência?

A menos de um mês do final de 2025 é natural que a questão surja: haverá algo realizado este ano que possa ser considerado uma referência para a próxima década?

Sem dúvida, que a estabilidade, política e institucional, foi significativamente perturbada pela crise, iniciada em março com a queda do governo e que culminou em eleições legislativas em 18 de maio, com todas as consequências negativas para a dinâmica governativa que isso trouxe. E a realização de eleições locais em outubro, num contexto de posicionamento para as eleições presidenciais de janeiro de 2026, também não terá gerado o ambiente mais propício ao desenvolvimento de grandes decisões. Mas seria de esperar que alguma coisa significativa pudesse ser vista em execução e “a crescer, aos nossos olhos”.

Sem menosprezar decisões tomadas, no âmbito das infraestruturas, como a do Novo Aeroporto de Lisboa, a alta velocidade Vigo – Porto – Lisboa (que em algum dia, esperamos, possa permitir viajar entre as duas principais cidades do País, depois das 20h30), ou no campo energético, nas comunicações e na digitalização, é difícil destacar algo de verdadeiramente estruturante, que possa vir a ser referenciado, daqui a alguns anos, como foi o caso de Sines, Alqueva, ou do mais recente projeto da Autoeuropa.

Honra seja feita, a economia não se saiu mal em 2025. E os dados do terceiro trimestre sobre a evolução do PIB permitem alimentar as perspetivas mais positivas, sustentando ainda as projeções do défice e da dívida, não obstante as indicações menos favoráveis da Comissão Europeia. Mas isto não elimina a dependência em que a economia portuguesa se encontra do financiamento europeu – agravada em contexto de fim do PRR –, da sobrespecialização em turismo e dos baixos salários, a que acresce a débil estrutura produtiva, a falta de escala, o défice de produtividade, a incapacidade de rentabilizar e de fixar a mão-de-obra jovem qualificada.

Numa perspetiva otimista, será legítimo ter as melhores expectativas sobre os impactos estruturais dos mais recentes projetos no âmbito da reforma administrativa, como a criação da ARTE – Agência para a Reforma Tecnológica do Estado, IP. Uma entidade pública, criada em agosto sucedendo à AMA, cuja missão é liderar a transformação tecnológica e digitalização da Administração Pública em Portugal. E, num plano mais específico, mas não menos relevante, é também legítimo que as expectativas sejam igualmente elevadas relativamente ao projeto da AI 2 – Agência para a Investigação e Inovação. Outra nova entidade pública empresarial, criada em novembro, resultante da agregação das competências das extintas FCT e ANI e com o objetivo de reforçar de forma integrada o ecossistema científico e tecnológico do País. Sob tutela conjunta dos Ministérios da Educação, Ciência e Inovação e da Economia e Coesão Territorial, a AI2 assume uma missão estratégica que, se concretizada, poderá colocar Portugal num patamar superior de potencial económico.

Uma nota final, triste. Não posso deixar de assinalar o falecimento do Eng. António Mota, empresário inovador que contribuiu decisivamente para o desenvolvimento empresarial e económico e para a projeção internacional do País. Uma referência que fica para a resposta aos desafios que se colocam hoje a Portugal.

Que 2026 seja um ano de sucessos e realizações para Portugal. A todos, desejo um Feliz Natal e um Bom Ano Novo

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