Argélia e Marrocos “num ponto sem retorno”

O presidente da Argélia considera que não há no horizonte qualquer tipo de entendimento que promova a reaproximação entre os dois países vizinhos. Não há relações diplomáticas entre os dois desde 2021.

Argélia e Marrocos “num ponto sem retorno”
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As relações entre a Argélia e Marrocos – historicamente marcadas por uma forte rivalidade, guerras e pequenos instantes de bom entendimento – atingiram “o ponto sem retorno”, disse o presidente argelino Abdelmadjid Tebboune em entrevista à Al Jazeera.

Com as relações diplomáticas cortadas desde 2021, Abdelmadjid Tebboune disse que, embora lamentasse a deterioração das relações entre a Argélia e o seu vizinho, “a culpa” é de Marrocos: “Praticamente chegámos a um ponto sem retorno”, “a nossa posição é de reação, nunca fomos nós que começámos os problemas.”

Os dois países do norte da África estão presos há décadas numa rivalidade concentrada no território do Saara Ocidental. Argel apoia o movimento armado da Frente Polisário (que quer a independência do território mas que Marrocos reivindica como seu.

Os separatistas pegaram em armas na década de 1970 – acaba de fazer 50 anos que o fizeram – e continuam a exigir um referendo sobre independência com base num acordo de 1991 que incluía um cessar-fogo e que era apoiado pelas Nações Unidas.

Para além do Saara Ocidental, Argélia e Marrocos divergem agora na sua posição em relação a Israel. Recorde-se que Marrocos foi um dos países muçulmanos que subscreveu os Acordos de Abraão – com que o ex-presidente norte-americano Donald Trump que lançar a diplomacia entre o Islão e Israel – mas a Argélia n~~ao este disponível para isso.

Na entrevista, Tebboune enfatizou o apoio do seu país à Palestina e disse que a Argélia via a questão como uma questão de política doméstica. A Argélia não reconhece Israel e por isso considera ilegítimo por parte de Marrocos iniciar relações diplomáticas com o Estado hebraico.

Pior ainda, como parte do Acordo de Abraão, Donald Trump concordou em reconhecer a soberania de Marrocos sobre o Saara Ocidental, o que na altura levantou forte polémica tanto na Europa como no norte de África – e também no Médio Oriente. Desde então, Marrocos exigiu que Israel desse esse passo antes de Rabat abrir uma embaixada em Tel Aviv – ou talvez mesmo em Jerusalém.

O presidente argelino também considerou que a Espanha é tendenciosa para o lado de Marrocos no que tem a ver com as questões que envolvem o Magrebe. E acrescentou que o governo espanhol esqueceu o seu papel como ex-potência colonial no Saara Ocidental. O Saara Ocidental  foi uma colónia espanhola até 1975, altura em que Marrocos assumiu o controlo da vasta faixa de deserto na costa atlântica.

O reconhecimento internacional do seu controlo do Saara Ocidental é um objetivo importante para o governo marroquino, que deixou a União Africana em 1984 em protesto contra o reconhecimento da organização da Frente Polisário. Marrocos voltou àquele organismo apenas em 2016.

A Espanha mantém uma posição neutra sobre o assunto há décadas, mas em março do ano passado Madrid apoiou uma proposta de Marrocos para oferecer autonomia ao Saara Ocidental sob a sua soberania, descrevendo-a como a “base mais séria, realista e credível” para acabar com o conflito. A Frente Polisário reagiu negativamente e o chefe do governo, Pedro Sánchez, teve mais um desentendimento com o seu parceiro de coligação, o Unidas Podemos – que contribuiu para deteriorar ainda mais as suas relações.

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