Mário Trinca e Nuno Nogueira da Silva conheceram-se na EY, ambos já com carreiras consolidadas. Por trabalharem em setores diferentes — Mário no setor financeiro e Nuno nas transações e reestruturações — não desenvolviam projetos em conjunto, mas o destino levou-os a juntarem-se para abrirem, há dois anos, a Alvarez & Marsal Portugal.
Quando a empresa lançou o desafio a Mário Trinca, este liderava a sua própria consultora, depois de ter passado pela Andersen Consulting/Accenture, pelas Nações Unidas e pela EY. Nuno Nogueira da Silva passou pela BDO e pela KPMG. Nesta última, em 2001, foi um dos profissionais que esteve na constituição da área de transações e, em 2011, foi desafiado a criar a primeira área de reestruturações numa Big Four em Portugal.
Seis anos depois chegou o convite da EY para desenvolver ali essa mesma área. Foi onde conheceu Mário Trinca e, numa altura em que Nuno sentia falta de uma componente mais operacional no seu trabalho, este propôs-lhe lançar a Alvarez & Marsal no nosso país. Foi o momento certo e assim nasceu a Alvarez & Marsal Portugal, já lá vão dois anos e muitos projetos concluídos com sucesso.
O que representa, para a Alvarez & Marsal global, a presença em Portugal?
Mário Trinca (MT): Portugal faz parte da estratégia de expansão no sul da Europa, em conjunto com Espanha e Itália. Queremos crescer localmente, mas também contribuir para projetos internacionais. Abrimos em maio de 2023 e, pela dimensão local, em certa medida, ainda nos consideramos uma start-up. No entanto, a Alvarez & Marsal é uma empresa muito forte, com mais de 95 escritórios em mais de 43 países e cerca de 12 mil colaboradores. Destes — e este é um detalhe importante — mais de 1500 são partners, ou managing directors como nós chamamos. Isto significa que funcionamos com um managing partner para cada sete ou oito pessoas na equipa. É um rácio muito menor do que a generalidade das consultoras.
“Gostamos de ‘pôr as mãos na massa’ e estar no terreno, ao lado dos clientes” – Nuno Nogueira da Silva, managing diretor da Alvarez & Marsal
O que distingue a Alvarez & Marsal das consultoras tradicionais?
Nuno Nogueira da Silva (NNS): A diferença principal está nas pessoas e na forma de trabalhar. As nossas equipas são muito seniores. Não recrutamos centenas de recém-licenciados. Ao contrário, recrutamos profissionais com 20 ou 30 anos de experiência, muitas vezes vindos da indústria. Isso permite-nos chegar rapidamente ao problema, identificar soluções e executá-las.
MT: Há outro ponto essencial: nós estamos no terreno. Ao contrário do modelo tradicional das Big Four, onde os partners estão mais afastados da execução, aqui estamos envolvidos no dia a dia dos projetos. De facto, uma característica comum a todos os profissionais da Alvarez & Marsal, independentemente da experiência, é gostarem de estar no terreno e de estar lado a lado com os clientes a desenvolver os projetos.
NNS: Gostamos de “pôr as mãos na massa” e de estar no terreno, ao lado dos clientes. Apesar de entendermos que o PowerPoints são documentos importantes, sobretudo para sintetizar as nossas conclusões, o verdadeiro valor está na execução.

Essa abordagem é inovadora no mercado?
MT: Diria que sim. Nas estruturas tradicionais, o modelo é mais piramidal: o partner intervém na venda, no acompanhamento e no fecho do projeto, mas não na execução diária. Por outro lado, o envolvimento direto dos profissionais seniores é parte do nosso ADN.
NNS: E isso traduz-se também em equipas mais pequenas, mas muito experientes. Outro pormenor inovador — e os nossos clientes notam isso — é que, pela confiança que temos nos resultados que vamos entregar, estamos disponíveis para construir modelos de remuneração associados aos mesmos. Ou seja, os nossos honorários são em função dos resultados efetivamente alcançados.
“Ao contrário do modelo tradicional das Big Four, onde os partners estão mais afastados da execução, o envolvimento direto dos profissionais seniores é parte do nosso ADN” – Mário Trinca, managing diretor da Alvarez & Marsal
Quais os projetos mais significativos destes dois anos da Alvarez & Marsal em Portugal?
NNS: O caso da Inapa em Portugal é um bom exemplo. Em três meses conseguimos identificar problemas, preservar ativos com valor e vender essas operações, salvaguardando centenas de postos de trabalho. Tudo com uma equipa de três pessoas, duas — lá está – com mais de 20 anos de experiência.
MT: Outro exemplo foi a transformação end-to-end das capacidades de projeção de uma entidade financeira, tornando-as mais ágeis, rápidas, abrangentes e fiáveis. Executado com uma equipa sénior, com recursos de Portugal, Reino Unido e Espanha. Estes projetos mostram bem a nossa capacidade de atuar rapidamente em contextos complexos.
Qual é o papel da tecnologia e da inteligência artificial (IA) no vosso trabalho?
MT: A inteligência artificial faz parte do nosso dia a dia , não é uma novidade. Temos ferramentas próprias, que utilizamos para consultar dados e permitem acelerar a recolha e análise de informação. Ajudam-nos a encurtar o tempo desde a identificação do problema até ao plano de ação, libertando tempo para o mais importante: o julgamento e a tomada de decisão.
MT: Vemos a IA como um complemento, não uma substituição. É, sobretudo, uma ferramenta que ajuda a enriquecer o trabalho do consultor, tornando-o mais eficiente e faz com que os resultados sejam alcançados com suporte de uma governance muito significativa para projetos muito complexos de transformação ou reestruturação.
Como funciona a dimensão internacional da empresa?
MT: É uma das grandes vantagens. Não temos barreiras à mobilidade — trabalhamos com equipas globais. Podemos mobilizar especialistas de qualquer país para um projeto específico, conforme necessário.
Quer dizer que um cliente da Alvarez & Marsal, em qualquer país, tem ao seu dispor uma equipa internacional de peritos?
MT: É exatamente isso. Estamos sempre em contacto, podemos trazer profissionais de todas as indústrias e mercados para trabalharem connosco num projeto e vice-versa.

Quais são os principais desafios e oportunidades atualmente?
NNS: Os nossos estudos mostram um aumento significativo das empresas em dificuldades financeiras na Europa. Há uma clara tendência de agravamento da situação operacional e financeira.
MT: Ao mesmo tempo, existe capital disponível — especialmente na banca — mas falta capacidade de o canalizar para a economia real. Existe um excesso de capital face àquilo que são os limites regulamentares, que permitem investir mais de 200 mil milhões de euros na economia, ou seja, o potencial que a banca tem para produzir crédito é significativo. Estamos a falar de dois terços do PIB nacional, o que é uma grande dimensão e, a nosso ver, faltam claramente mecanismos de transmissão deste capital para a economia real. E nós gostaríamos muito de contribuir para que isto aconteça.
Que papel pode a Alvarez & Marsal ter nesse contexto?
MT: Nós estamos preparados. Temos os profissionais e os instrumentos para ajudar a transformar visão em execução. Para nós, há quatro elementos essenciais: visão, ambição, coragem e capacidade de execução. Sem execução, nada acontece. Há um exemplo muito interessante, da J.P. Morgan nos EUA, que identifica as áreas que a J.P. Morgan pretende privilegiar face ao seu excesso de capital. Penso que falta em Portugal um plano nacional, pensado desta forma, muito focado nos resultados que se querem obter, e nós poderemos, certamente, dar um contributo positivo.
NNS: É precisamente aí que queremos estar — a ajudar a concretizar resultados reais.
No terreno, onde tudo aconteceA Alvarez & Marsal (A&M) atua muitas vezes em contextos exigentes e de grande pressão — e a resposta passa sempre por estar no terreno. Um dos projetos mais relevantes em curso é na Ucrânia. Em novembro, o Fundo de Investimento para a Reconstrução EUA–Ucrânia selecionou a Alvarez & Marsal como consultora para apoiar os processos de investimento do Fundo. Desde então, a A&M tem vindo a apoiar a implementação e operacionalização dos sistemas do Fundo para avaliação e qualificação de oportunidades de investimento, bem como a realizar atividades de due diligence e apoio à análise financeira. Através desta parceria, o Fundo está a contribuir para a reconstrução da economia da Ucrânia e para o reforço de setores que beneficiam o país. Recentemente, a propósito dos conflitos geopolíticos, a equipa da A&M Middle East organizou webinars e sessões com empresas para discutir ações práticas e de intervenção direta para resposta imediata à crise e reforço da resiliência a médio e longo prazo. Em abril de 2026, o governo de Moçambique nomeou formalmente a Alvarez & Marsal para apoiar a sua estratégia de gestão da dívida pública até 2029, ao abrigo de um mandato do Ministério das Finanças, reforçando o seu papel em projetos de dimensão internacional. Este tipo de trabalho é executado pela área de Sovereign Advisory Services da A&M, criada para apoiar governos que enfrentam stress fiscal, problemas de liquidez ou necessidade de reestruturação da dívida pública. |
Este artigo foi produzido em parceria com a Alvarez & Marsal.