Pedro Braz Teixeira, Economista

Ainda não recuperámos da pandemia

PIB ainda está quase sete mil milhões de euros abaixo do que teria sido sem pandemia.

Podemos falar em dois tipos de recuperação da queda da pandemia: i) recuperar o nível de PIB do 4º trimestre de 2019; ii) recuperar o nível de PIB que teríamos se não tivesse havido pandemia.

O primeiro critério é o menos exigente, e Portugal atingiu-o no 1.º trimestre de 2022. O segundo critério é mais exigente mas também mais relevante, porque corresponde a recuperar a posição na trajectória crescente que a economia vinha percorrendo. Entre 2016 e 2019, a média de crescimento foi 2,8%, mas não podemos usar este valor para estimar a tendência de médio prazo, porque a economia ainda estava a recuperar da crise anterior. Faz mais sentido uma tendência de 2%, próximo da que o Conselho de Finanças Públicas usa.

Usando esta referência, no 1.º trimestre de 2024, o PIB ainda está 2,4% (6,7 mil milhões de euros) abaixo do que seria se não tivesse havido pandemia, pelo que ainda não recuperámos completamente desta perturbação.

É verdade que na UE também não houve esta recuperação, mas o que isto significa é que o referencial que estamos a considerar para falar de convergência é muito pobre, pelo que crescer umas décimas acima da média comunitária é muito insatisfatório. Em contrapartida, os EUA já estão na trajectória anterior à pandemia, um referencial mais ambicioso, que deveríamos adoptar.

Em relação à qualidade do crescimento, também não temos boas notícias. No 4.º trimestre de 2019, tínhamos uma taxa de desemprego de 6,9% e já estamos melhor que então (6,8% no 1.º trimestre de 2024), mas em termos de produtividade os resultados são maus: caiu 0,3% em termos homólogos no 1.º trimestre deste ano, quando tinha crescido 0,9% nos dois trimestres precedentes. Isto sugere que estamos a criar empregos pouco qualificados e com baixa produtividade, em parte por efeito de assistirmos a emigração significativa de jovens qualificados e recebermos imigrantes de países pouco desenvolvidos. Se continuarmos com esta tendência, teremos muita dificuldade em subir salários e em convergir com a UE.

Só com crescimento acima dos 2% conseguiremos recuperar da pandemia e não há praticamente nenhuma instituição que o preveja nos próximos anos. Só o programa da AD o previa mas, para isso, seria necessário aprovar um conjunto de reformas estruturais, o menos diluídas possível da sua versão original, e que estas tenham o impacto significativo esperado.

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