O Jornal Económico falou com os principais operadores do mercado de gestão de frotas, para tentar perceber em que pé se encontra este sector, que vive muito para empresas mas também para clientes individuais. Para isso, foram colocadas quatro questões essenciais para perceber o estado atual do mercado: 1. A mobilidade elétrica tem mostrado potencial nos últimos anos?; 2. Quais as mudanças mais significativas sentidas em 2022?; 3. De que forma é vista o avanço tecnológico na gestão de frotas?; 4. O que poderá fazer o sector para enfrentar a inflação?
Duarte Guedes
CEO
Hertz Portugal
1. Sim, e a partir do momento em que foi um desígnio político, passou do potencial para uma certeza. O Parlamento Europeu anunciou o fim da venda de viaturas com motor de combustão interna a partir de 2035. O desafio agora está finalmente lançado para todo o ecossistema, nomeadamente fabricantes, infraestrutura e o poder político, que poderá ter de monitorizar de perto esta transição numa das principais fileiras industriais e de exportação da Europa dos últimos 100 anos. Já em 2022, as viaturas elétricas representaram 11% do total de viaturas matriculadas em Portugal.
2. No caso da mobilidade elétrica, ficou reforçada em 2022, pese embora a grande dificuldade que se sentiu na cadeia de distribuição do sector automóvel. Mas houve avanços no que diz respeito, por exemplo, a novos anúncios de investimento na rede de carregamento ou no aparecimento de mais aplicações que contribuem para a crescente adoção dos veículos elétricos. Neste ano marcado pela guerra na Europa, as economias discutiram mais o tema da dependência energética, que impacta vários sectores, incluindo o da mobilidade.
3. O avanço tecnológico recente e futuro vai continuar a provocar um enorme impacto no mundo das frotas. E muito provavelmente o mundo, daqui a uns anos, vai resumir-se a frotas, na sua maioria. Desde a revolução dos últimos anos no mobile com o aparecimento das aplicações/ marketplaces que potenciaram a agregação de oferta e procura a um nível nunca antes visto, passando pela eletrificação, IoT e a quantidade de dados fornecida pelos veículos, e a culminar na condução autónoma daqui a uns anos.
4. Será sempre uma adaptação do sector e do próprio cliente, que ajustará o seu consumo necessariamente em função do rendimento/budget que tem disponível. Recentemente, temos tido forças inflacionistas nos diversos fatores de produção envolvidos, e outras deflacionistas como é o caso dos custos de manutenção dos carros elétricos. Mas estamos muito centrados ainda na inflação recente de 2022. É como se fosse um espelho retrovisor. Vamos ver como se comporta a taxa de inflação neste e no próximo ano. Mas é claro que qualquer player tem de se ir adaptando na sua política de sourcing, na eficiência operacional, etc.
João Folgosa
Responsável de marketing
GRENKE Renting
1. Ao longo dos últimos anos, o foco das PME na digitalização e na sustentabilidade tem contribuído para a diversificação do portefólio de bens locáveis da GRENKE. É notório o crescimento na locação de equipamentos mais sustentáveis como bicicletas elétricas, wallboxes ou sistemas fotovoltaicos. A procura por mobilidade elétrica tem sido superior em outros países em que o grupo GRENKE opera, mas o potencial em Portugal existe e temos verificado recentemente um grande interesse por soluções de renting nesta área.
2. As empresas têm recorrido cada vez mais ao renting para investir em mobilidade elétrica. Só no último ano, a GRENKE locou mais de 30 mil bicicletas elétricas em todos os países em que está presente. Após a pandemia, temos sentido uma forte procura pelo produto de renting por parte de empresas na área do turismo (cadeias hoteleiras, alojamentos locais e empresas de atividade turística), particularmente na locação de bicicletas elétricas. Para além de motivações ambientais ou económicas, o uso de bicicletas elétricas contribui para a saúde e o bem-estar das pessoas, fator muito valorizado nos dias que correm.
3. Muitas empresas já começaram a pôr em prática as suas metas de Environmental, Social and Corporate Governance, que delinearam para os próximos anos, como parte da sua estratégia para alcançarem um negócio mais sustentável, mas também com a necessidade contínua de inovarem e renovarem os seus equipamentos tecnológicos. O renting tem sido uma ferramenta de apoio para a implementação de novas tecnologias na gestão de frotas. Por exemplo, há empresas que estão a investir em carregadores elétricos e a recente proibição da venda de veículos novos com motores a combustão a partir de 2035 deverá incentivar ainda mais a procura por alternativas sustentáveis. Perante este cenário, temos constatado também o aparecimento de novas empresas na área de mobilidade elétrica e outras têm adaptado o seu negócio a esta realidade. A GRENKE está atenta e o objetivo é continuar a estabelecer parcerias com empresas que atuam nesta área.
4. Acreditamos que as empresas devem estar sempre preparadas para enfrentar qualquer crise. E a melhor prevenção é recorrer a ferramentas que as ajudem a manter o seu equilíbrio. O renting é uma solução que pode atenuar o efeito atual da inflação, uma vez que as empresas não têm que dar uma entrada inicial nos seus investimentos tecnológicos e as mensalidades são sempre fixas durante todo o período de contrato, permitindo assim manter a liquidez e uma tesouraria equilibrada. O renting é uma solução flexível que permite às empresas gerirem melhor os seus investimentos e enfrentarem qualquer desafio, como o atual aumento de custos energéticos.
Paulo Pinto
Head of Portugal do Europcar
Mobility Group em Portugal
1. A Europcar Mobility Group integra a mobilidade elétrica já não apenas como parte do desígnio estratégico, mas também nas ações táticas do corrente, assumindo uma cada vez maior importância entre a nossa oferta de mobilidade. Temos um plano para tornar a nossa frota mais ecológica: “One Sustainable Fleet”, a médio prazo, que lançámos há alguns anos, com a primeira meta já em 2024: atingir os 20% da frota ecologicamente sustentável (emissões inferiores a 50 g CO2/km).
Em Portugal temos já uma frota considerável de veículos elétricos e híbridos plug-in, distribuídos por todo o país, consolidando a nossa posição como rent-a-car com a maior frota ecológica do país.
2. Voltamos a níveis de negócio idêntico aos volumes de 2019, com aumento da procura de viaturas elétricas pelos clientes B2B e B2C. O grande desafio foi a aquisição de frota nova, e apesar dos constrangimentos de mercado, conseguiu a Europcar dar a melhor resposta às necessidades dos seus clientes.
Colocando todo o ano em perspetiva, o balanço de 2022 foi francamente positivo.
Os preços que praticamos acompanham as necessidades dos clientes, sejam eles particulares ou profissionais e a companhia está sempre atenta aos sinais do mercado, nomeadamente, ao aumento de procura de viaturas elétricas, independente do segmento. Temos ainda alguma dificuldade no acesso a viaturas novas no mercado, de uma forma transversal, considerando o volume que manejamos, mas conseguimos encontrar soluções em volume e tempos de fornecimento para manter o nosso habitual nível de resposta.
A incerteza do cenário macroeconómico é mais uma variável importante a considerar, particularmente quando os mercados potencialmente mais afetados são os principais mercados emissores.
3. Na Europcar vemos a tecnologia como grande aliada da operação.
Com a integração da Green Mobility Holding (formada pela Volkswagen, Attestor e Pon Holdings) temos sentido um grande impulso para o grupo do ponto de vista financeiro, o que está a permitir acelerar os projetos tecnológicos em que já estamos envolvidos e iniciar novos de forma ágil, flexível e inovadora. Estamos preparados para acelerar a nossa transformação contínua para uma plataforma de mobilidade líder.
Numa perspetiva nacional, no segmento de turismo temos apresentado soluções sustentadas em inovações tecnológicas e que nos têm permitido apresentar produtos muito interessantes. Falo, por exemplo, do serviço deskless onde a Europcar apresenta um serviço imbatível em duas das suas marcas – o Europcar Premium Pick up e o Goldcar Key n’Go. Recorrendo a um QRcode o cliente dirige-se à estação onde, sem necessidade de intervenção humana, lê o código QR num kiosk eletrónico que de imediato lhe disponibiliza a chave da viatura. Todo o processo demora menos de um minuto. É uma evolução no serviço ao cliente e na experiência de aluguer verdadeiramente transformador: digital, cómodo, rápido e sem quaisquer complicações.
No segmento empresas, também estamos a antecipar as necessidades dos nossos clientes, que pretendem um rigor acrescido de saber ao minuto o que se passa, com a preocupação de controlo de custo na utilização das suas frotas. Como resposta, neste momento temos 98% da frota conectada, cumprindo na íntegra toda a legislação RGPD.
4. O sector tem tido uma excelente resposta conjunta aos desafios recentes. A Europcar, em particular, está sempre atenta aos sinais do mercado e os preços que pratica acompanham as necessidades dos clientes.
A nossa operação é baseada no rigor, qualidade e flexibilidade, o que significa que temos uma oferta muito atrativa para os nossos clientes. Trabalhamos numa lógica de controlo de custos, quer por via de otimização da performance da operação quer na relação com fornecedores, no intuito de reduzir ao máximo o impacto nos clientes, repassando nas tarifas praticadas as poupanças obtidas quer por via da inovação tecnológica (ganhos de produtividade), quer por via da otimização dos custos dos fatores de produção.
Gonçalo Telles
Diretor comercial
Geocar
3. Considero que neste mercado existe lugar para a toda a concorrência sectorial. Cada concorrente se destaca pelas suas funcionalidades e pela prestação de serviços associados. Em seis anos de direção comercial, verifico que dispomos de uma carteira de clientes bastante satisfeita que tem acesso às novas funcionalidades, uma equipa de consultoria que adapta a nossa solução às necessidades e requisitos dos clientes. Posso afirmar que dispomos do serviço do cliente mais célere do mercado, conjugando com um serviço de pós-venda de excelência e uma relação comercial aliada ao princípio “win-win”. A maior parte dos nossos novos clientes são recomendados por clientes existentes, uma excelente métrica da avaliação do nosso serviço de gestão e localização GPS.
4. O futuro destes sistemas tecnológicos é existirem cada vez mais novas funcionalidades que irão proporcionar maior agradabilidade, entregando mais benefício aos clientes.
Neste momento, a GeoCar está a ultimar a funcionalidade de os seus clientes saberem através da app mobile ou de um simples computador os erros originados na Centralina, que posteriormente aparecem no quadrante das viaturas. E, em tempo real, receberem de uma forma automática instruções para marcação na oficina ou imobilização da viatura, dependendo do erro gerado. Novas métricas para os carros elétricos e outras novas funcionalidades que não podem ainda ser relevadas, mas que se encontram já em timeline.
João Soromenho
Diretor comercial
Arval
1. Sem dúvida. Temos assistido nos últimos anos a um aumento exponencial do número de carros elétricos, híbridos e híbridos plug-in. Assistimos também a uma mudança de paradigma, no sentido em que existe uma maior consciencialização ambiental por parte dos consumidores, contribuindo para um crescimento na aposta de veículos elétricos.
Os incentivos fiscais e os baixos custos de operação são outras razões que estão a contribuir para o incremento desta realidade.
É importante realçar que a oferta de modelos também cresceu e diversificou-se, passando as marcas a disponibilizar mais opções em quase todos os segmentos.
Isto teve, sobretudo, algum impacto com o surgimento de viaturas PHEV abaixo dos 27.500 euros (valor sem IVA), modelos que beneficiam de uma taxa reduzida de Tributação Autónoma de apenas 2,5%, quando comparados com as viaturas a gasóleo, que têm uma taxa de 10%.
Além disso, as viaturas elétricas abaixo de 62.500 euros estão isentas de tributação autónoma, pelo que os benefícios fiscais são geralmente apontados como uma das principais razões para as empresas decidirem optar cada por este tipo de veículos para a sua frota.
Pela parte da Arval, o nosso papel é trabalhar juntamente com cada cliente para aferir qual a viatura que mais se adapta às necessidades de cada empresa ou condutor, tendo sempre em conta a utilização efetiva que esta vai ter.
O nosso objetivo é continuar a realizar um caminho para contribuir para uma verdadeira transição energética. Queremos, até 2025, ter 700 mil veículos eletrificados sob gestão global e diminuir em 35% as emissões de CO2 da frota gerida.
2. Sem dúvida que uma das mudanças mais significativas e com mais impacto na atividade das gestoras de frota foi a dilatação do prazo de entrega de novas viaturas por falta de componentes e, consequentemente, de atrasos na produção por parte das marcas. O prazo médio para a entrega de novas viaturas situa-se agora nos seis meses, sendo que em algumas marcas, pode chegar a doze meses. As empresas foram obrigadas a rever os seus contratos de renting existentes e assistiu-se a um prolongamento geral dos prazos dos contratos em vigor.
Assistimos também a alterações significativas dos preços das viaturas, com implicações no valor mensal de aluguer, falta de peças para reparação de avarias ou sinistros e aumento do valor da mão de obra.
Toda esta conjuntura obrigou muitos dos nossos clientes a repensar a sua política de frota, prolongar contratos e a iniciar estudos de TCO muito mais aprofundados, com um grande foco no consumo de combustível ou energia e na fiscalidade, tentando desta forma obter poupanças que permitam manter o nível de viaturas e dos custos da sua frota. Assistimos também a um redesenho de políticas de frota com downgrades de nível de viaturas de forma a fazer face ao aumento dos preços dos carros e à volatilidade das taxas de juro.
3. A gestão de frotas está cada vez mais tecnológica e assiste-se
a um grande número de desenvolvimentos a nível digital.
Não falamos somente de novas tecnologias automóveis que permitem às empresas e particulares acelerarem a sua transição energética. Falamos também de novas aplicações e do aumento da importância da conectividade na gestão das frotas, sendo uma área que está a ser muito utilizada, tanto na transformação digital, como quando precisamos ajudar as empresas na mitigação do aumento de custos. Também a Arval utiliza uma aplicação telemática, o Arval Connect, desenvolvida pela Arval com base na experiência recolhida junto dos seus clientes a nível internacional, permitindo através da tecnologia de conectividade, ajudar as empresas a identificar custos, o que de outra forma não seria possível.
4. Com o objetivo de reduzir o impacto da volatilidade das taxas de juro e dos preços dos carros, o sector precisa, acima de tudo, de não adiar decisões, sob pena de quanto mais tarde tomar uma decisão, mais dispendiosa será.
É necessário antecipar encomendas e optar por viaturas cujos prazos de entrega sejam mais curtos ou que existam em stock. Outra medida para minimizar o impacto da inflação, e a que temos vindo a assistir e apoiar por parte dos nossos clientes, é a revisão das regras das políticas de frota. Em algumas situações é mesmo necessário fazer o downgrade de algumas viaturas para que se consiga manter os custos.
A Arval tem estado a apoiar os seus clientes através de estudos aprofundados de TCO, dando especial relevância aos consumos de cada viatura e á fiscalidade em vigor. Por vezes, apesar de a viatura ter um PVP mais elevado, não quer dizer que tenha um TCO superior. Todos os fatores contam e é preciso analisá-los. A equipa de Consulting da Arval trabalha em conjunto com os clientes para analisar o tipo de utilização de cada viatura e qual a solução mais vantajosa e com um TCO mais baixo.