Naiole Cohen, Economista, Professora na Universidade Agostinho Neto, Luanda

A politicagem do futebol

No Mundial de Futebol, o VAR funcionou, sim, para tratar mal equipas geopoliticamente não amigas. 2026 escancarou a relação entre o futebol e a politicagem.

Apito final para mais um Campeonato do Mundo de futebol. Foram semanas de “emoções puras”, misturadas com uma pitada generosa de politicagem de bastidores, e eu, cá para mim, jurava que ia ser apenas bola. Ingenuidade minha.

O tal confronto que gostaríamos que fosse meramente desportivo revelou-se um autêntico tratado de geopolítica. O VAR funcionou, sim, para tratar mal equipas geopoliticamente não amigas. 2026 escancarou a relação entre o futebol e a politicagem.

Tivemos de tudo, desde interferências logísticas com a delegação iraniana, que enfrentou condições inéditas de hospedagem que pareciam um reality show de sobrevivência, tudo parte do charme da hospitalidade USA, até ao  árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, eleito o melhor juiz das Áfricas em 2025, que teve o seu visto negado pela imigração USA e acabou deportado. A delegação uruguaia foi submetida a uma revista policial inédita às vésperas da entrada e, ao longo das semanas, mensagens políticas com a mais evidente pela equipa Argentina. FIFA 2026 expôs os limites da suposta “neutralidade desportiva”.

Valeram-nos as emoções do número inédito das equipas das Áfricas que deram orgulho aos seus respectivos países e deram a grande lição deste campeonato: ganhar 3 pontos deixou de ser “um jogo com favas contadas”. Apesar de estas equipas não possuírem o mesmo suporte logístico, nem os estádios de última geração, conseguiram ombrear frente a frente com as seleções que “têm tudo”. Resiliência foi a mensagem que ficou.

Agora, passemos ao tema mais quente: “a crise climática”, que dividiu opiniões tanto quanto os golos. Falou-se da política migratória e da diáspora das Áfricas pelo mundo, porque muitos dos craques que brilham são filhos das Áfricas, e é uma ironia deliciosa… Parabéns às Áfricas! Podem orgulhar-se de tantos filhos que, mesmo longe, geram valor bilionário e indiretamente nos representam com a alma.

Honestamente, aqueles que se queixam da política no desporto que atirem a primeira pedra. Parabéns aos campeões, mas, acima de tudo, parabéns aos sobreviventes da selva política e económica. Essa, sim, foi a verdadeira final. No final, o futebol provou mais uma vez o óbvio: dentro de campo joga-se a bola, mas fora dele joga-se o poder. 2030, Marrocos, único país das Áfricas que terá a proeza de “co-sediar” mais uma ronda geopolítica e económica ao lado de Espanha e Portugal. Haja vida para ver.

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