João Rodrigues Pena, Empresário, Gestor e Consultor

A falácia da terceira geração

Aqueles que sobem para o topo da escada da riqueza tendem a permanecer lá por anos ou mesmo séculos, graças a um legado forte que passa sólido de geração em geração.

A primeira geração ergue, a segunda reforça e a terceira destrói. Esta noção tornou-se mais do que um adágio popular – muitos membros da comunidade empresarial tratam-na como uma verdade insofismável … e uma fatalidade inevitável. Vale a pena tratar aqui hoje deste assunto para entender a sua origem e mostrar que, obviamente, se trata duma falácia que importa denunciar… e eliminar.

A origem: um estudo incipiente carregado de falhas

A “regra das três gerações” nasce dum estudo da década de 1980  sobre empresas industriais em Illinois que se foi tornando o argumento base para limitar de forma drástica a longevidade das empresas familiares. Com base numa amostra, considerou as empresas que estavam em operação durante o período de estudo e agrupou-as em blocos de trinta anos, que considerou representarem gerações. Conclusão: apenas um terço das empresas familiares deste estudo tinha passado pela segunda geração e apenas 13% pela terceira.

As repercussões deste estudo foram enormes. Mas vale a pena analisar a sua qualidade intrínseca porque encerra graves erros de análise. Em primeiro lugar, as conclusões são frequentemente descritas incorretamente. O estudo não diz que um terço das empresas familiares chega à segunda geração, mas sim que um terço chega até ao final da segunda geração, ou sessenta anos. Estamos a falar de uma diferença de trinta anos na longevidade dos negócios, não é admissível a comparação. Em segundo lugar, o estudo não compara estas empresas com as não familiares.

Num outro estudo com 25,000 empresas de capital aberto feito entre 1950 e 2009 a longevidade média não ultrapassou os 15 anos – ou seja nem uma geração. Por último, o estudo não fornece informações sobre as razões do desaparecimento de algumas empresas familiares. Disputas no seio da família e problemas comerciais prejudicaram seguramente algumas delas, mas em muitos casos os proprietários venderam o seu negócio para arrancar com um novo – o que está longe de ser considerado um falhanço.

O perigo do mito das três gerações

O mito das três gerações é tão difundido que se pode se tornar uma profecia autorrealizável para as empresas familiares que acreditam que as chances de sucesso a longo prazo estão contra elas. Uma família próspera foi aconselhada com base no mito, assustou-se mas não vacilou e passou a empresa para os seus sucessores com a ajuda de um forte corpo de executivos externos.

Então, há algo no mito das três gerações? É certo que algumas famílias passam de trapos a riquezas e vice-versa, mas, em média, não. Aqueles que sobem para o topo da escada da riqueza tendem a permanecer lá por anos ou mesmo séculos, graças a um legado forte que passa sólido de geração em geração.

A situação em Portugal: nada podia estar mais longe do mito

Consideremos os doze maiores grupos económicos nacionais e o retrato é revelador – doze estão na mão da terceira geração e cinco já na quarta geração. A estabilidade, o fortalecimento e a valorização estão profundamente embebidas no ethos destas famílias e tudo indica que o seu percurso continuará a ser de crescimento e criação de valor no futuro, geração após geração. Se descermos mais abaixo às cinquenta maiores empresas, o panorama é mais heterogéneo – mas apenas porque a história destas empresas é mais recente e ainda temos o fundador ou a segunda geração à frente da empresa.

O corolário – a morte à terceira geração é um mito tosco … porque uma empresa pode morrer seja em que geração for, se o fundador não preparar as bases para uma família trabalhadora, responsável e unida por muitas gerações

Se acompanhamos os conflitos que se desenrolam pública e permanentemente entre algumas das empresas familiares mais visíveis do mundo ficamos com a noção de que as empresas familiares são mais frágeis do que as não familiares. Na verdade, essa é a sabedoria convencional: muitos artigos ou discursos sobre empresas familiares hoje incluem uma referência à “regra das três gerações”, que diz que a maioria não sobrevive para além da terceira geração. Mostrámos que é uma enorme falácia e fazer dela eco só prejudica as empresas familiares que estão a preparar a terceira geração.

Essa perceção não poderia estar mais longe da verdade. Na realidade, as estatísticas mostram que as empresas familiares duram muito mais tempo, dominam a maioria das listas das empresas mais duradouras do mundo e têm posições financeiras e de mercado sólidas. Mas isso só é verdade porque existe uma consciência da boa gestão de riqueza de geração em geração – e é esse um dos pilares da longevidade, como refere o amargurado Robert Balantine, que viu falir a empresa familiar nas mãos da sua geração.

E como diz com grande sabedoria a Grande Confederação Iroquois das tribos índias dos EUA na sua Constituição “In our every deliberation, we must consider the impact of our decisions on the next SEVEN generations”.

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