A dança da chuva

A política portuguesa é hoje um doce NFT. É só um código de computador para garantir que o arquivo é autêntico e único.

A dança da chuva
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A grande contribuição britânica para arte do convívio foi falar sobre o tempo. Assim conseguia-se o máximo acordo com o mínimo de acção intelectual. A sociedade portuguesa adaptou, com orgulho, esta genial invenção e aplicou-a a quase tudo o que move ou respira: à política, à economia, à cultura, à justiça ou à saúde. Discutem-se anedotas e evitam-se as questões de fundo. A grande questão do momento é a falta de chuva em Portugal. O epílogo deste pânico cíclico já é conhecido: depois de chover, muito ou pouco, todos se vão calar, focar a atenção no Big Brother ou noutro tema igualmente relevante, e daqui a um ano voltaremos a discutir o problema estrutural da falta de água e as formas de combater a desertificação.

 

Já que não cai água do céu, o ministro doutor Matos Fernandes foi promovido a feiticeiro e mandou chover lítio. Quando conseguir, com a sua dança, que do céu jorre o aeroporto do Montijo em forma de trovoada, então é que a transição ambiental portuguesa será glorificada em todo o mundo. Espera-se, nessa altura, que se consigam vender “vistos gold” suficientes para aqueles que, em vez de chegarem aqui para observar pássaros migrantes, desejam fazer “planes watching” nas cercanias. O ministro das Finanças agradecerá.

Agora que, segundo o Governo, o lítio é o nosso petróleo verde, não sei que mais queremos para proclamar Portugal como uma República Verde. Para já, segundo parece, vai emagrecer-se o tamanho do Governo. No número de ministros. Porque já antes se tinham enxugado as ideias, mesmo com muitos ministros. Não é que a oposição ajude: sobre a criação de uma política séria de recursos hídricos há um silêncio desértico. Ninguém quer tocar nos interesses instalados ou que se desejem instalar, por exemplo, na costa alentejana. A leste do Governo, também só chovem picaretas do firmamento.

A oposição, tal como o Governo, é excepcional na arte do lançamento do martelo. Gosta de atirar o peso dos problemas para o futuro. Às vezes gostaria de ter uma máquina do tempo para fugir do presente. Mas também é incapaz de criar um cenário de futuro, mesmo que para isso tivesse de ler um livro de Philip K. Dick ou J. G. Ballard. Mas, para isso, era preciso ler.

A política portuguesa é hoje um doce NFT. É só um código de computador para garantir que o arquivo é autêntico e único. Entre a realidade e a virtualidade, sobra só um jogo de palavras sem relação com o que se passa na vida das pessoas comuns. Para estes tempos, com novos desafios, seriam de esperar novas ideias. Podemos esperar sentados, como se estivéssemos no interior do país à espera de um transporte, de um centro de saúde ou de uma escola.

O PS transformou-se no partido do sistema. As forças à sua esquerda vão-se dissolvendo, falando para um mundo em extinção e não reparam que são personagens de uma versão do “Parque Jurássico”. À direita, as forças mais extremistas estão a conseguir atrair os partidos moderados para posições mais duras. A nova ideologia do PSD poderá em breve ser servida numa bandeja de prata pela IL, com muito liberalismo económico e pouca social-democracia. Joseph Schumpeter, o defensor da “destruição criativa”, sabia que ela criaria a desordem social intolerável. Por isso dizia: “Eu não tenho uma farmácia. Não tenho de fornecer comprimidos nem soluções imediatas para problemas práticos que possam surgir”.

Muitas propostas políticas e económicas que por aí circulam também não propõem farmácias: os efeitos da sua hipotética governação criativa ficarão para quem tem de pagar impostos e comprimidos ao mesmo tempo. Não por acaso o PS tornou-se o reduto da estabilidade da sobrevivente e cada vez mais insolvente classe média.

O modelo imobiliário lisboeta é um bom sinal do impasse da sociedade portuguesa actual: os velhos moradores de bairros históricos com uma lógica de comunidade foram substituídos numa primeira fase pelas novas classes criativas que os tornaram atraentes e objecto de desejo. Rapidamente esta classe criativa foi desalojada pelos interesses imobiliários de retorno rápido, que com a ausência de turistas, tornaram a parte central da capital do país um lugar desértico e sem vida própria.

Circula dinheiro, não se busca inovação. Nem se preserva a história, para que possamos mostrar algo relevante, nem se inova para sermos diferentes. O investimento de retorno rápido quer que tudo seja igual. O desaparecimento do pensamento crítico e a nova hegemonia de ideias uniformes que hoje conquistou o espaço público nacional é o resultado deste estrangulamento do regime e da sociedade.

Em 1880, Émile Zola escreveu “Literatura e Dinheiro”, onde o escritor francês reflectia sobre a figura do escritor nesses novos tempos. Até aí, sobretudo nos séculos XVII e XVIII, a literatura era manobrada pelos poderosos. Os escritores funcionavam como centros de ócio para quem tinha dinheiro e poder e, assim, a vida intelectual movimentava-se dentro das classes altas, em salões e academias. Com a revolução chegou a alfabetização de grande parte da população que passou a ler mais livros, o que permitiu ao escritor livrar-se da sua posição desconfortável. Poder ler por pouco dinheiro levou a que a indústria editorial crescesse e desse rendimentos aos escritores e pensadores. O escritor livrava-se de compromissos, sem necessidade de adular ninguém.

O dinheiro emancipara o escritor, escrevia Zola. O regresso ao passado está em marcha rápida. Hoje, em Portugal, a criatividade, seja cultural, seja económica ou política, é um doloroso exercício de sobrevivência. Alguns querem tornar Portugal num país de homens e mulheres cinzentos. Outros, num condomínio onde só cabem os vencedores e de onde os perdedores podem e devem ser excluídos. Perante isso, Portugal será um dia destes um NFT. Verde por fora. Sem sabor, por dentro.

 

O nosso amigo Charlie Brown

Como conseguiram, ao longo de décadas, um miúdo inadaptado e um cão destroçar o sonho americano em tiras diárias nos principais jornais dos EUA e de todo o mundo? Pela simplicidade. Charles M. Schulz, ao criar “Peanuts”, conseguiu sintetizar transformar o valor dos “comics” no poder do fracasso. Schulz colocou um dia Charlie Brown a perguntar-se: “Como vou fazer uma redação de 500 palavras sobre quem sou se nem eu próprio o sei?” Esta questão estará sempre presente na existência de Schulz e Charlie Brown: aquele nasceu há 100 anos (em 1922,no Minnesotta) e faleceu há duas décadas e o jovem personagem surgiu há perto de 70 anos como o seu reflexo no espelho da vida.

É um mundo melancólico mas também optimista aquele onde se movem Charlie Brown e Snoopy. Charlie é um perdedor, mas a sociedade americana da década de 1950 revia-se nele. No fundo, cada personagem trazia algo que compunha o puzzle de uma sociedade em busca de si própria: Charlie Brown era a bondade; Linus, a vida humana com as suas perguntas filosóficas; Lucy, a parte sarcástica e ácida da vida, com uma pitada de maldade; Snoopy, a parte sonhadora; e Schroeder, a criatividade. Neles encontramos um quadro completo de valores humanos que preenchem o dia-a-dia de qualquer cidade, com os seus sonhos e decepções.

E há, sempre, o amor. Quem gosta de Charlie Brown é incapaz de esquecer o dia em que, frente à caixa de correios, no dia dos Namorados ele não recebe nenhum postal de São Valentim. Não por acaso os módulos da Apollo 10, foram baptizados pela NASA como Snooopy e Charlie. Aquela tinha pela primeira vez uma câmara de televisão a cores e nele os astronautas surgiram com um desenho de Snoopy fora do globo terrestre. O sonho tornava-se realidade. A 3 de Janeiro de 2000, Schulz decidiu desenhar a última tira de “Peanuts”. Morreria a 12 de Fevereiro desse ano. E, com ele, um pouco do outro lado do sonho americano.

 

O futuro das palavras

Depois do “nordic noir” começa a ser visível um novo movimento da literatura nórdica, onde se cruza a fantasia com a ficção científica. Muitos apontam para a qualidade das finlandesas Johanna Sinisalo ou Leena Krohn. Mas na Suécia surgiu também a refrescante Karin Tidbeck de que “Amatka” (a sua novela de estreia) foi agora reeditada entre nós. A sua criatividade evolui num território que não nos é desconhecido: conspirações, opressão política e liberdade cerceada. Houve quem o comparasse a um excelente livro de China Miéville, “The City and The City”, sobre cidades-estado europeias cujos habitantes de cada uma estão proibidos de saber algo sobre a existência das outras.

Aqui encontramos uma colónia agrícola (Amatka), onde um governo totalitário exerce o seu poder sobre uma população pobre e deprimida. A distopia está em certas regras, como os cidadãos terem de repetir os nomes de certos objectos marcados, sob pena de eles se dissolverem. Dizer os nomes das coisas parece muito mais importante do que ter relações com outras pessoas. Mas, curiosamente, os objectos que sobreviveram ao fim do “velho mundo”, como o papel, são reais e não precisam de ser etiquetados ou ditos, porque não se dissolvem.

A personagem principal, Vanja, vinda de outra colónia, Essre, para descobrir oportunidades de mercado para produtos de higiene da empresa para a qual trabalha, chega num comboio sem janelas a caminho do desconhecido. Mas tem de se adaptar à frieza de Amatka, que tem um céu cinzento. Quanto mais conhece a colónia, mais estranha ela se parece. Nunca sabemos muito sobre o “mundo antigo”, antes destas colónias surgirem, onde parecem não existir animais. Quando os objectos se dissolvem a uma velocidade nunca vista, vai-se falando de uma rebelião. Tudo é um imenso enigma e o próprio fim da novela, vago, tem a ver com com a cor do céu (nem branco, nem negro – cinzento) e com as ambiguidades morais de uma sociedade repressiva.

Deixa-nos, no entanto, uma questão muito relevante para os nossos dias: o poder dos nomes (e a forma como a linguagem pode ser utilizada para controlar a percepção e a substância das coisas) faz-nos lembrar este universo “pós-verdade” onde vivemos. Ou seja, como é viver num mundo dirigido pela linguagem? Como é que uma sociedade sobrevive num universo desses? E o que acontece aos indivíduos que ali sobrevivem? Num mundo cada vez mais virtual, estas são questões vitais que enriquecem a literatura.

Karin Tidbeck, “Amatka”, Top Seller/Penguim Random House, 275 páginas, 2022

 

Terapia pop

Ao fim de seis álbuns a ainda jovem Mitski é já um dos nomes mais fortes da música norte-americana. Como cantora e autora rema contra a maré com as suas inspiradas canções sobre os labirintos do amor, da felicidade e da estabilidade. São temas carregados de dúvidas que funcionam como ácido sulfúrico nas nossas certezas. Há aqui salpicos de indie-rock e de baladas ambientais, mas sobretudo Mitski funciona como uma terapista para muitas das depressões da sociedade actual. Encara-as com paciência, fala delas e põe-nos a falar delas.

“Lauren Hall” (CD Dead Oceans 2022), o seu novo álbum, é um disco mais imediato, com uma forte dimensão pop, mas a complexidade do que ela canta torna-o ainda mais atraente. Segundo ela, enquanto o escreveu, estava imersa a escutar Iggy Pop durante os seus anos em Berlim, Hall & Oates, Scott Walker, Vangelis e Giogio Moroder. Não é um acaso: no início da década de 1980 todos tinham esperança no futuro e acreditavam que tudo era possível. Havia dinheiro, possibilidades e criatividade. Foi isso que a influenciou para encontrar uma saída do nevoeiro que encobre estes tempos de pandemia. Percebe-se tudo isto nestas canções.

Mitski Miyawaki é filha de uma japonesa e de um americano e a vida deste, como diplomata, permitiu que ela conhecesse o mundo. Em Nashville (a capital do country) aprendeu coisas mundanas: fazer pão e jardinagem, onde percebeu que não se pode apressar as plantas quando estas crescem. E essa foi uma grande lição para fazer canções. O cuidado nunca é pouco, como canta em “Valentine, Texas”: “Let’s step carefully into the dark”. Em “Working for the Knife”, Mitski fala-nos de como navegar do meio da exploração económica.

Neste disco há uma grande canção: “The Only Heartbreaker”, forte e fluída, envolvente e poderosa. E “Love Me More” apenas reforça esta capacidade de sintetizar os sentimentos humanos em canções densas, mas imediatas, que não se esquecem facilmente.

 

Velhos duelos

Em Janeiro de 1926 a revista “Ilustração” trazia uma fotografia de um duelo escrevendo na legenda: “contra a Igreja e a lei, o anacrónico duelo mantém-se a dirimir questões de honra. Supondo ofensivas para a sua pessoas certas palavras proferidas numa sessão camarária de Lisboa pelo sr. Dr. Beja da Silva, quando se debatia o conflito entre a Câmara e a Companhia de Gás e Electricidade, o director desta, o sr. Dr. António Centeno enviou aquele as suas testemunhas.” Travado o duelo com espada francesa, o edil acabou por cair morto, não por golpe do adversário, mas por síncope cardíaca, refere a revista. Hoje a “honra” defende-se noutros campos: nas televisões e nas redes sociais…