Sónia de Sá, Professora, Universidade Autónoma de Lisboa e Universidade da Beira Interior

‘2022 farewell’: ciberdúvidas, guerras e Covid

Mal a Covid-19 tinha começado a andar, à passagem dos três anos, já as máscaras tinham desaparecido, os chipes das vacinas evaporado e os americanos livres de Trump... Tantas tantas e tantas coisas más para recordar, 'farewell to 2022'. 'Bienvenido', 2023.

Se começarmos pelo fim, juntamo-nos (salvo seja) em lágrimas com as lágrimas de Cristiano Ronaldo e da seleção nacional, que se despediram de um campeonato num país que trata as mulheres como seres inferiores, os homossexuais como criminosos e os pobres (a grande maioria) como escravos dos muito, muito, muito petro-ricos.

Quantas horas passei a ver o tal campeonato? As mesmas que passei a ver as multidões desesperadas à procura de prendas para os pais, tios, primos e amigos dos amigos que nem se lembram que existem, mas que podem ficar chateados por não receberem o 17.º pacote de Ferrero Rocher em vésperas de Natal. [E como não gosto deste Natal consumista, arre!]

Adiante.

Já mal nos lembramos, mas o início deste ano trouxe o fim da geringonça para dar palco absoluto a António Costa, ao seu Governo e aos familiares destes. Que bonito tem sido este love making entre governantes e assessores e tudo e tudo.

Era abril quando tivemos Governo e já nos cheirava ao espírito natalício. Com ele, a bomba financeira, sob a égide do “Plano de Recuperação e Resiliência” (PRR) – para gastarmos como se não houvesse amanhã –, e a bomba Rússia-Ucrânia, que nos passou a controlar a agenda noticiosa, as contas de supermercado e de combustível e tudo e tudo, além de nos ter mostrado que, na Europa, somos mais solidários quando os refugiados são mais clarinhos do que retintos, dizem só as vozes em surdina, que, em público, dizem “somos todos supé integradores e amigos dos ‘pobres coitadinhos’”.

Mal a Covid-19 tinha começado a andar – à passagem dos três anos – já as máscaras tinham desaparecido, os chipes das vacinas evaporado e os americanos livres de Trump, tanto como os brasileiros tinham chutado para canto o ‘bolsomínio’ da gripezinha que ajudou a matar mais de meio milhão de pessoas só no Brasil.

O ano ainda ia a meio e os ataques ciber já tinham dado cabo da cabeça – e de parte do negócio – à Vodafone, à Impresa ou, mais tarde, à Universidade da Beira Interior (UBI); a Serra da Estrela ardia sem parar durante uma dúzia de dias numa confusão de meios, de pessoas, de comandantes, de proteções mais ou menos civis e de presidentes de câmara movidos por discursos mais populistas que os dos populares em sofrimento.

Entretanto, vai que não vai, o Costa decidiu dar ao povo mais necessitado 125 euros para pagar todas as dívidas: a subida dos preços de tudo e de mais um par de botas e até da prestação da casa que está mais choruda; o que nos fez esquecer, por exemplo, que temos Comissões de Proteção de Crianças e Jovens em Risco a brincarem às casinhas, levando à morte da Jéssica Biscaia, uma menina de três anos assassinada só porque sim ou porque ninguém esteve à altura para a proteger. Raio de sistema este!

Mas calma, o mundo ainda conseguiu respirar fundo porque o PCP renovou-se de tal forma que apenas duas pessoas, além de Jerónimo de Sousa e a família do novo secretário-geral, conheciam o novo comunista mor, Paulo Raimundo.

Ora, e como o campeonato do mundo lá dos confins acabou para Portugal, ficamos especados a ver Lisboa a encher-se de água e entulho, um pouco mais além da já habitual poluição e mesmidade pedante.

Enfim, farewell to 2022. Bienvenido, 2023.

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