Joana Santos Silva, Professora, ISEG Executive Education

Falando com estranhos, de bestial a besta

Os grandes escândalos financeiros e sociais são geralmente protagonizados por quem não se comporta como um estranho.

Este artigo não é sobre a recomendação que os nossos pais nos faziam quando eramos pequenos. Pelo contrário, inspira-se numa situação pessoal das minhas férias nos EUA. Fui jantar em família a um restaurante simpático que serviu um prato de garoupa bastante agradável.

Até aqui, não teríamos uma história se não fosse o facto de termos tido um problema com o pagamento. Inicialmente os cartões de crédito não funcionaram. O sistema alertava para um problema de comunicação de rede. Sem stress, pensei eu, vamos levantar ao ATM, mas nem cartões de crédito nem débito estavam a cooperar. É neste momento que os empregados começam a ficar extraordinariamente agressivos…

Enquanto o cenário se desenrolava, lembrei-me do livro de Malcolm Gladwell que apresenta uma análise sobre como interagimos com as pessoas que não conhecemos e por que é tantas vezes estamos equivocados, seja para o bem e para o mal, em relação aos outros. Quando confrontados com estranhos usamos um conjunto de estratégias para tentar descortinar as palavras e ações dos outros. Deve ter sido por isso que, a determinado momento, enquanto eu estava ao telefone a tentar resolver a questão com alguém em Portugal, o empregado de mesa gritou-me para eu falar em inglês.

Quanto mais “desalinhados” somos uns dos outros, mais insuficientes são as estratégias que usamos para desvendar as intenções do estranho. Os seres humanos não são transparentes e na maioria dos casos, a nossa interpretação é enviesada e incorreta.

Os estranhos que pretendem manipular sabem adotar os comportamentos tidos como “normais”. Os grandes escândalos financeiros e sociais são geralmente protagonizados por quem não se comporta como um estranho.

O Bernie Madoff encobriu o seu esquema de Ponzi ao vestir-se e falar exatamente como um gentleman financeiro. E o  escândalo da Federação de Ginástica em que o Larry Nassar, que cometeu vários crimes sexuais e chegou a abusar das atletas à frente dos pais das mesmas, sem que os mesmos suspeitassem? A situação com o Rubiales será outro lobo predador disfarçado?

A título pessoal este episódio fez-me perceber que todos nós podemos ser estranhos num determinado momento. Até à data tenho tido o privilégio de ser geralmente percecionada como “normal”. Sou branca, alta, falo várias línguas, mas o mundo está cheio de preconceitos e basta um pequeno problema nos sistemas de comunicação interbancários para repentinamente passares de bestial para besta.

Ainda este fim de semana houve mais um episódio nos EUA em que a polícia matou a tiro uma jovem grávida à porta do supermercado. Qual é o equívoco de compreensão que instiga esses cenários de injustiça?

A sociedade tem ficado cada vez mais agressiva e estamos mais alienados. Como diz o meu pai: o que é difícil é ser normal. Contudo, o que será normal? Precisamos de adquirir melhores ferramentas para falarmos com estranhos, ou continuaremos a fazer julgamentos equivocados recorrentes. Falta muita empatia na nossa sociedade e a capacidade para falarmos com estranhos. Temos de fazer melhor até porque como se diz em inglês – it could happen to you…

Relacionado